Crença
Crenças são estados mentais em que se assume que algo é verdadeiro ou provável. Elas são expressas linguisticamente por meio de afirmações. Há discordância sobre quais são as características essenciais das crenças: os representacionalistas identificam crenças com atitudes proposicionais em relação a representações, enquanto os funcionalistas veem seu papel causal como essencial e os interpretacionistas se concentram na dependência da interpretação de outra pessoa.
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Várias concepções das características essenciais das crenças foram propostas, mas não há consenso sobre qual é a correta. O representacionalismo é a posição tradicionalmente dominante. Em sua forma mais comum, sustenta que as crenças são atitudes mentais em relação a representações, que são geralmente identificadas com proposições. Estas atitudes fazem parte da constituição interna da mente que mantém a atitude. Esta visão contrasta com o funcionalismo, que define as crenças não em termos da constituição interna da mente, mas em termos da função ou do papel causal desempenhado pelas crenças. Segundo o disposicionalismo, as crenças são identificadas com disposições para se comportar de certas maneiras. Esta visão pode ser vista como uma forma de funcionalismo, que define crenças em termos do comportamento que tendem a causar. O interpretacionismo constitui outra concepção, que ganhou popularidade na filosofia contemporânea. Sustenta que as crenças de uma entidade são, em certo sentido, dependentes ou relativas à interpretação que outra pessoa faz dessa entidade. O representacionalismo tende a ser associado a um dualismo mente-corpo. As considerações naturalistas contra este dualismo estão entre as motivações para escolher uma das concepções alternativas.
Representacionalismo
O representacionalismo caracteriza as crenças em termos de representações mentais. Representações são geralmente definidas como objetos com propriedades semânticas, como ter um conteúdo, referir-se a algo, ou ser verdadeiro ou falso. Crenças formam uma classe especial de representações mentais, pois não envolvem qualidades sensoriais para representar algo, ao contrário das percepções ou memórias episódicas. Por causa disso, parece natural interpretar crenças como atitudes dirigidas a proposições, que também constituem representações não sensoriais, ou seja, como atitudes proposicionais. Como atitudes mentais, as crenças são caracterizadas tanto por seu conteúdo quanto por seu modo. O conteúdo de uma atitude é aquele para o qual esta atitude é dirigida: seu objeto. Atitudes proposicionais são dirigidas a proposições. Crenças são geralmente distinguidas de outras atitudes proposicionais, como desejos, por seu modo ou pela forma como são dirigidas a proposições. O modo de crenças tem uma direção de ajuste mente-a-mundo (mind-to-world direction of fit): as crenças tentam representar o mundo como ele é; elas não envolvem, ao contrário dos desejos, uma intenção de mudá-lo. Por exemplo, se Rahul acredita que hoje vai fazer sol, então ele tem uma atitude mental em relação à proposição "Hoje vai fazer sol", que afirma que esta proposição é verdadeira. Isto é diferente do desejo de Sofia de que hoje faça sol, apesar do fato de tanto Rahul quanto Sofía terem atitudes em relação à mesma proposição. A direção de ajuste mente-a-mundo das crenças às vezes é expressa dizendo que as crenças visam a verdade. Este objetivo também se reflete na tendência de revisar uma crença ao receber nova evidência de que é falsa. Assim, ao ouvir a previsão do mau tempo, Rahul provavelmente mudará sua atitude mental, mas Sofia não.[carece de fontes?]
Funcionalismo
O funcionalismo contrasta com o representacionalismo no sentido de que define crenças não em termos da constituição interna da mente, mas em termos da função ou do papel causal desempenhado por elas. Essa visão é frequentemente combinada com a ideia de que a mesma crença pode ser realizada de várias maneiras e que não importa como é realizada, contanto que desempenhe o papel causal característico dela. Como analogia, um disco rígido é definido de forma funcionalista: ele desempenha a função de armazenar e recuperar dados digitais. Esta função pode ser realizada de muitas maneiras diferentes: sendo feita de plástico ou aço, ou usando magnetismo ou laser. Os funcionalistas sustentam que algo semelhante é verdadeiro para crenças (ou estados mentais em geral). Entre os papéis relevantes para as crenças está sua relação com as percepções e com as ações: as percepções geralmente causam crenças e as crenças causam ações. Por exemplo, ver que um semáforo mudou para vermelho está geralmente associado à crença de que o semáforo está vermelho, o que, por sua vez, faz com que o motorista pare o carro. Os funcionalistas usam tais características para definir crenças: qualquer coisa que seja causada pelas percepções de uma certa maneira e também causa comportamento de uma certa maneira é chamado de crença. Isto é verdade não apenas para os humanos, mas pode incluir animais, alienígenas hipotéticos ou até mesmo computadores. Desta perspectiva, faria sentido atribuir a crença de que um semáforo é vermelho a um veículo autônomo que se comporta como um motorista humano.[carece de fontes?]
Interpretacionismo
Segundo o interpretacionismo, as crenças de uma entidade são, em certo sentido, dependentes ou relativas à interpretação por outra pessoa sobre esta entidade. Daniel Dennett é um defensor importante de tal posição. Sustenta que atribuímos crenças a entidades a fim de prever como elas se comportarão. Entidades com padrões comportamentais simples podem ser descritas usando leis físicas ou em termos de sua função. Dennett se refere a estas formas de explicação como a "postura física" e a "postura de design". Estas posturas são contrastadas com a postura intencional, que é aplicada a entidades com um comportamento mais complexo, ao atribuir crenças e desejos a estas entidades. Por exemplo, podemos prever que uma jogadora de xadrez moverá sua dama para f7 se atribuirmos a ela o desejo de ganhar o jogo e a crença de que este movimento alcançará isso. O mesmo procedimento também pode ser aplicado para prever como um computador de xadrez se comportará. A entidade tem a crença em questão se essa crença pode ser usada para prever seu comportamento. Ter uma crença é relativo a uma interpretação, já que podem haver diferentes maneiras igualmente boas de atribuir crenças para prever o comportamento. Portanto, pode haver outra interpretação que prevê o movimento da dama para f7 que não envolve a crença de que este movimento ganhará o jogo. Outra versão do interpretacionismo é devida a Donald Davidson, que usa o experimento mental da interpretação radical, no qual o objetivo é dar sentido ao comportamento e à linguagem de outra pessoa a partir do zero, sem nenhum conhecimento da linguagem desta pessoa. Esse processo envolve a atribuição de crenças e desejos ao falante. O falante realmente tem estas crenças se este projeto puder ser bem-sucedido em princípio.
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As crenças podem ser categorizadas em vários tipos, dependendo de seu estado ontológico, seu grau, seu objeto ou suas propriedades semânticas.[carece de fontes?]
Ocorrente e disposicional
Ter uma crença ocorrente de que o Grand Canyon está no Arizona envolve entreter a representação associada a esta crença, por exemplo, pensando ativamente sobre isso. Mas a grande maioria de nossas crenças não estão ativas na maior parte do tempo: estão meramente disposicionais. Elas geralmente se tornam ativadas ou occurrentes quando são necessárias ou relevantes de alguma forma e, em seguida, voltam ao seu estado disposicional depois. Por exemplo, a crença de que 57 é maior que 14 era provavelmente disposicional para o leitor antes de ler esta frase, se tornou ocorrente durante a leitura e pode logo se tornar disposicional novamente quando a mente se concentra em outro lugar. A distinção entre crenças ocorrentes e disposicionais é às vezes identificada com a distinção entre crenças conscientes e inconscientes. Mas foi argumentado que, apesar da sobreposição, as duas distinções não coincidem. A razão para isto é que as crenças podem moldar o comportamento de uma pessoa e estar envolvidas no seu raciocínio, mesmo que o sujeito não esteja consciente delas. Tais crenças são casos de estados mentais ocorrentes inconscientes. Nesta visão, estar ocorrente corresponde a estar ativo, seja consciente ou inconscientemente.
Plena e parcial
Uma disputa importante na epistemologia formal diz respeito à questão de saber se as crenças devem ser conceitualizadas como crenças plenas (full beliefs) ou como crenças parciais (partial beliefs). Crenças plenas são atitudes do tipo tudo ou nada: ou alguém tem uma crença em uma proposição, ou não. Esta concepção é suficiente para entender muitas atribuições de crenças encontradas na linguagem cotidiana: por exemplo, a crença de Pedro de que a Terra é maior que a Lua. Mas alguns casos que envolvem comparações entre crenças não são facilmente captadas apenas através de crenças plenas: por exemplo, que a crença de Pedro de que a Terra é maior que a Lua é mais certa que sua crença de que a Terra é maior que Vênus. Tais casos são mais naturalmente analisados em termos de crenças parciais envolvendo graus de crença, referidos como "credence" na literatura inglesa. Quanto maior o grau de uma crença, mais certo está o crente de que a proposição crida é verdadeira. Isto é normalmente formalizado por números entre 0 e 1: um grau de 1 representa uma crença absolutamente certa, uma crença de 0 corresponde a uma descrença absolutamente certa e todos os números intermediários correspondem a graus intermediários de certeza. Na abordagem bayesiana, estes graus são interpretados como probabilidades subjetivas: por exemplo, uma crença de grau 0,9 de que vai chover amanhã significa que o agente pensa que a probabilidade de chuva amanhã é de 90%. O bayesianismo usa essa relação entre crenças e probabilidade para definir as normas de racionalidade em termos das leis de probabilidade. Isto inclui tanto leis sincrônicas sobre o que se deve crer a qualquer momento quanto leis diacrônicas sobre como se deve revisar suas crenças ao receber nova evidência.
Crença-em e crença-de-que
Tradicionalmente, os filósofos concentraram-se principalmente em suas investigações sobre a crença na noção de crença-de-que (belief-that). A crença-de-que pode ser caracterizada como uma atitude proposicional em relação a uma afirmação que é verdadeira ou falsa. A crença-em, por outro lado, está mais intimamente relacionada a noções como confiança ou fé, já que se refere geralmente a uma atitude para com as pessoas. A crença-em desempenha um papel central em muitas tradições religiosas nas quais a crença em Deus é uma das virtudes principais de seus seguidores. A diferença entre crença-em e crença-de-que às vezes é embaçada, já que várias expressões usando o termo "crença em" parecem ser traduzíveis em expressões correspondentes usando o termo "crença de que" em seu lugar. Por exemplo, pode-se dizer que uma crença em fadas é uma crença de que as fadas existem. Nem todos os usos de crença-em dizem respeito à existência de algo: alguns são elogiosos, já que expressam uma atitude positiva em relação ao seu objeto. Foi sugerido que estes casos também podem ser explicados em termos de crença-de-que. Por exemplo, uma crença no casamento poderia ser traduzida como uma crença de que o casamento é bom. A crença-em é usada em um sentido semelhante quando se expressa autoconfiança ou fé em si mesmo ou nas próprias habilidades.[carece de fontes?]
De dicto e de re
A diferença entre as crenças de dicto e de re ou as atribuições correspondentes diz respeito às contribuições que termos singulares como nomes e outros dispositivos referenciais fazem às propriedades semânticas da crença ou sua atribuição. Em contextos regulares, o valor de verdade de uma sentença não muda após a substituição de termos correferenciais. Por exemplo, já que os nomes "Superman" e "Clark Kent" se referem à mesma pessoa, podemos substituir um pelo outro na sentença "Superman é forte" sem alterar seu valor de verdade. Mas esta questão é mais complicada no caso de atribuições de crenças. Por exemplo, Lois crê que Superman é forte, mas ela não crê que Clark Kent é forte. Essa dificuldade surge devido ao fato de que ela não saber que os dois nomes se referem à mesma entidade. Crenças ou atribuições de crenças para as quais essa substituição geralmente não funciona são de dicto, caso contrário, são de re. Assim, em um sentido de re, Lois crê que Clark Kent é forte, enquanto em um sentido de dicto ela não o crê. Os contextos correspondentes às atribuições de dicto são conhecidos como contextos referencialmente opacos, enquanto as atribuições de re são referencialmente transparentes.
Imagem: Sebástian Freire · BY-SA · Openverse
Como representações mentais, as crenças têm conteúdos. O conteúdo de uma crença é aquilo do que se trata esta crença ou o que ela representa. Dentro da filosofia, há várias disputas sobre como o conteúdo das crenças deve ser entendido. Holistas e molecularistas sustentam que o conteúdo de uma crença em particular depende ou é determinado por outras crenças possuídas pelo mesmo sujeito, o que é negado pelos atomistas. A questão da dependência ou determinação também desempenha um papel central no debate internalismo-externalismo. O internalismo afirma que os conteúdos das crenças de alguém dependem apenas do que é interno a essa pessoa: eles são determinados inteiramente pelas coisas que acontecem dentro da cabeça dessa pessoa. O externalismo, por outro lado, sustenta que as relações com os arredores também têm um papel a desempenhar nisto.[carece de fontes?]
Atomismo, molecularismo e holismo
A discordância entre atomismo, molecularismo e holismo diz respeito à questão de como o conteúdo de uma crença depende do conteúdo de outras crenças sustentadas pelo mesmo sujeito. Os atomistas negam tais relações de dependência, os molecularistas as restringem a apenas algumas crenças estreitamente relacionadas, enquanto os holistas sustentam que podem obter entre quaisquer duas crenças, por menos relacionadas que pareçam. Por exemplo, suponha que Mei e Benjamin afirmam que Júpiter é um planeta. A explicação mais simples, dada pelos atomistas, seria que eles têm a mesma crença, ou seja, que afirmam que o mesmo conteúdo é verdadeiro. Mas agora suponha que Mei também acredita que Plutão é um planeta, o que é negado por Benjamin. Isto indica que eles têm conceitos diferentes de planeta, o que significaria que eles estavam afirmando conteúdos diferentes quando ambos concordaram que Júpiter é um planeta. Este raciocínio leva ao molecularismo ou holismo porque o conteúdo da crença de Júpiter depende da crença de Plutão neste exemplo.
Internalismo e externalismo
O internalismo e o externalismo discordam sobre se o conteúdo de nossas crenças é determinado apenas pelo que está acontecendo em nossa cabeça ou também por outros fatores. Os internalistas negam tal dependência de fatores externos. Eles sustentam que uma pessoa e uma cópia exata teriam exatamente as mesmas crenças. Hilary Putnam se opõe a esta posição por meio de seu experimento de pensamento da Terra gêmea. Ele imagina uma Terra gêmea em outra parte do universo que é exatamente igual à nossa, exceto que a água deles tem uma composição química diferente, apesar de se comportar exatamente como a nossa. De acordo com Putnam, o pensamento do leitor de que a água é molhada diz respeito à nossa água, enquanto o pensamento do gêmeo do leitor na Terra gêmea de que a água é molhada diz respeito à água deles. Este é o caso apesar do fato de que os dois leitores têm a mesma composição molecular. Portanto, parece necessário incluir fatores externos para explicar a diferença. Um problema com esta posição é que esta diferença de conteúdo não traz consigo nenhuma diferença causal: os dois leitores agem exatamente da mesma maneira. Isto lança dúvidas sobre a tese de que há alguma diferença genuína, que precisa de explicação, entre os conteúdos das duas crenças.
Epistemologia
Os termos crença e conhecimento são usados de formas diferentes na filosofia. A epistemologia é o estudo filosófico do conhecimento e da crença. O principal problema na epistemologia é entender exatamente o que é necessário para que nós tenhamos conhecimento verdadeiro. Em uma noção derivada do diálogo de Platão Teeteto, a filosofia tem tradicionalmente definido conhecimento como "crença verdadeira justificada". A relação entre crença e conhecimento é que uma crença é o conhecimento, se a crença é verdadeira e se o crente tem uma justificativa (afirmações/provas /orientações razoáveis e necessariamente plausíveis) para acreditar que é verdade.[carece de fontes?]
Psicologia
Na psicologia, o termo crença na autoeficiência define a crença de alguém em seu próprio poder de agir de modo efetivo ou de influencia eventos. Associada ao trabalho de Albert Bandura, a teoria da autosuficiência argumenta que uma forte crença na autosuficiência contribui para um senso positivo de lidar com o mundo, portanto está intimamente ligada com a noção de locus interno de controle. De acordo com Bandura, é mais saudável psicologicamente para um indivíduo ter uma crença em sua autosuficiência levemente mais alta do que a evidência pode garantir, desde que isso o encoraje a assumir tarefas mais difíceis e a persistir nelas. As crenças são, por vezes, divididas em crenças raiz (que estão ativamente pensadas) e crenças disposicionais (a que pode ser atribuída a alguém que não tenha pensado sobre o assunto). Por exemplo, se questionado: "Você acredita que tigres vestem pijamas?" um indivíduo pode responder que não, apesar do fato de nunca ter pensado sobre essa situação antes.


