Aquiles
Aquiles, uma figura central na mitologia grega, foi um herói lendário e o maior guerreiro da Guerra de Troia, imortalizado como protagonista da 'Ilíada' de Homero. Sua história é marcada por coragem, fúria e um destino trágico.
Pontos-chave
- Aquiles é o protagonista e maior guerreiro da 'Ilíada' de Homero, destacando-se na Guerra de Troia.
- Seu nome pode estar ligado ao 'luto do povo', um tema recorrente na 'Ilíada', contrastando com a glória da guerra.
- Filho da nereida Tétis e do rei Peleu, sua imortalidade foi tentada, mas ele permaneceu vulnerável no calcanhar.
- Educado por Quíron e Fênix, Aquiles era um guerreiro formidável, mas também capaz de grande ternura e fúria.
- Sua 'cólera' contra Agamemnon e a vingança pela morte de Pátroclo são pontos cruciais de sua narrativa.
O nome 'Aquiles' (Achilleus) é rico em simbolismo, podendo ser interpretado como 'luto do povo' (de ἄχος, 'luto', e λαός, 'povo'). Essa etimologia sugere um contraste irônico com sua imagem de herói de 'kleos' (glória), pois o luto é um tema central na 'Ilíada'. O termo 'laos' também pode significar 'corpo de soldados', implicando que, dependendo de suas ações, Aquiles poderia trazer luto aos inimigos ou a seus próprios homens. O nome se tornou comum na Grécia antiga e deu origem à forma feminina 'Achilleía', inclusive para uma gladiadora romana, em uma curiosa referência à luta de Aquiles contra Pentesileia.
Aquiles era filho da bela nereida Tétis e de Peleu, rei dos mirmidões. Tétis era cobiçada por Zeus e Posídon, mas uma profecia de Prometeu revelou que seu filho seria mais poderoso que o pai. Por isso, os deuses desistiram de cortejá-la e a casaram com Peleu. Uma versão alternativa na 'Argonáutica' sugere que Tétis rejeitou Zeus por lealdade a Hera, demonstrando sua castidade.
A lenda do 'calcanhar de Aquiles' surge em fragmentos da 'Aquilíada' de Estácio, quase mil anos após a 'Ilíada'. Segundo essa versão, Tétis tentou tornar Aquiles imortal mergulhando-o no rio Estige, mas o calcanhar, por onde o segurava, permaneceu vulnerável. Outra versão menciona Tétis ungindo-o com ambrosia e colocando-o no fogo, sendo interrompida por Peleu. No entanto, Homero e Ovídio não mencionam essa invulnerabilidade. Na 'Ilíada', Aquiles é ferido no calcanhar por Asteropeu, o que sugere que o mito da invulnerabilidade total é uma adição posterior à narrativa original.
Peleu confiou Aquiles ao centauro Quíron, no monte Pélion, para sua formação. Quíron o alimentou com uma dieta peculiar (mel, medula de ursos e javalis, vísceras de leões) e o instruiu na caça, adestramento de cavalos, medicina, música e, acima de tudo, na virtude. Aquiles cresceu belo, loiro, intrépido, e capaz de grande ternura e violência. Ele também teve Fênix como preceptor, que o ensinou oratória e guerra. Pátroclo, seu amigo, foi educado junto com ele.
Aquiles na Corte do Rei Licomedes
Aos nove anos, o adivinho Calcas profetizou que Troia só cairia com a ajuda de Aquiles. Temendo por sua vida, Tétis disfarçou-o de mulher, com o nome de Pirra ('loira'), e o enviou para a corte do rei Licomedes, em Esquiro, para ser educado entre as filhas do rei. Odisseu, porém, descobriu o disfarce: ele se apresentou como mercador no gineceu real, expondo joias e tecidos, mas também um escudo e uma lança. Ao soar uma trombeta de guerra, Aquiles correu para as armas, revelando sua verdadeira identidade e concordando em participar da guerra.
Aquiles é o foco da 'Ilíada' de Homero, que começa com sua 'ira'. Sua jornada de humanização através dos eventos da guerra é um tema central. Embora o épico não descreva sua morte, ele narra sua retirada da batalha e seu retorno vingativo.
O Encontro com Télefo
No caminho para Troia, os gregos desembarcaram acidentalmente na Mísia, governada pelo rei Télefo. Aquiles o feriu com uma lança, e a ferida não cicatrizava. Um oráculo disse a Télefo que 'aquele que feriu deverá curar'. Télefo foi a Argos, onde Aquiles o curou, tornando-se seu guia para Troia. Versões alternativas da lenda incluem Télefo disfarçado de mendigo ou sequestrando Orestes para obter a cura, que foi realizada raspando pedaços da lança de Aquiles sobre a ferida.
Élida e Tenedo: Conflitos e Sacrifícios
Após uma expedição fracassada, os gregos ficaram retidos em Élida por ventos desfavoráveis. Para apaziguar os deuses, Agamemnon precisava sacrificar sua filha Ifigênia, atraindo-a com a falsa promessa de casamento com Aquiles. Ao descobrir o embuste, Aquiles confrontou Agamemnon, marcando o início de sua rivalidade. Após o sacrifício, os ventos permitiram a partida. Em Tenedo, Aquiles matou o rei Tenes, filho de Apolo, selando seu próprio destino, apesar de ter prestado um funeral solene.
A Luta contra Cicno de Colonas
Segundo a 'Cípria' e outras tradições, ao chegarem a Troia, Aquiles enfrentou e matou Cicno de Colonas, um filho de Posídon, demonstrando sua força e destreza em combate logo no início do conflito.
A Morte de Troilo
A 'Cípria' relata que Aquiles impediu os aqueus de retornarem, atacou o gado de Eneias, saqueou cidades e matou Troilo. Troilo, um jovem príncipe troiano (filho de Príamo ou Apolo e Hécuba), era um líder guerreiro crucial, e profecias ligavam seu destino ao de Troia. Ele foi emboscado por Aquiles, que o matou, um evento significativo para o destino da cidade.
A Cólera na Ilíada
A 'Ilíada' de Homero narra a famosa cólera de Aquiles. O épico começa com sua retirada da batalha após ser desonrado por Agamemnon. Agamemnon, forçado a devolver Criseida, sacerdote de Apolo, exigiu Briseida, escrava de Aquiles, como compensação. Irado e incitado por sua mãe Tétis, Aquiles se recusou a lutar, causando grandes perdas aos gregos. Essa ira é um dos temas centrais da obra, mostrando a complexidade do herói.
A Vingança de Aquiles
A morte de Pátroclo, seu amigo, pelas mãos de Heitor, devastou Aquiles. Ele realizou jogos fúnebres em sua honra e, consolado por Tétis, recebeu uma nova armadura forjada por Hefesto, incluindo o famoso Escudo de Aquiles. Consumido pela fúria e desejo de vingança, Aquiles retornou à batalha, matando inúmeros troianos em busca de Heitor. Sua fúria foi tão intensa que ele chegou a lutar contra o deus-rio Escamandro e foi contido pelos deuses, que temiam que ele saqueasse Troia antes do tempo predestinado.
A relação entre Aquiles e Pátroclo é um dos aspectos mais debatidos de seu mito. Na 'Ilíada', eles são retratados como modelos de uma 'philia' (amizade) profunda e leal. Ao longo da história, essa relação foi interpretada de diversas maneiras, refletindo as culturas de cada época. Na Atenas do século V a.C., por exemplo, era comum interpretá-la como pederástica. Hoje, leitores se dividem entre vê-los como 'camaradas de guerra' (hetaîros) sem relacionamento sexual ou como um casal homossexual, evidenciando a fluidez das interpretações míticas.
Aquiles foi objeto de um culto heroico arcaico na Ilha Branca (Leuca), no Mar Negro, onde um templo e um oráculo dedicados a ele existiram até o período romano. A 'Aithiopis' narra que Tétis levou as cinzas de Aquiles para Leuca, onde os aqueus ergueram um túmulo e celebraram jogos fúnebres. Plínio, o Velho, e Pausânias mencionam a ilha e seu templo. Ruínas de um possível templo foram descobertas em 1823. Na modernidade, a imperatriz Isabel da Baviera (Sissi) construiu o palácio Achilleion em Corfu, na Grécia, em 1890, dedicado a Aquiles, com estátuas e pinturas que recriam cenas da Guerra de Troia, celebrando o herói em um contexto romântico.
O Culto a Aquiles nos Tempos Modernos
Na região de Gasturos, em Corfu, Grécia, a imperatriz Isabel da Baviera (Sissi) construiu em 1890 um palácio de verão, o Achilleion, com Aquiles como tema central. Este monumento ao romantismo platônico é adornado com pinturas e estátuas do herói, tanto no salão principal quanto nos luxuosos jardins, que recriam cenas trágicas e heroicas da Guerra de Troia, demonstrando a duradoura influência de Aquiles na cultura e arte.
No Livro 11 da 'Odisseia', Aquiles, no mundo inferior, expressa preferir ser um escravo vivo a um rei dos mortos, mas se enche de satisfação ao saber dos feitos heroicos de seu filho Neoptólemo, revelando uma ambiguidade sobre sua visão da vida heroica. Aquiles foi venerado como deus marinho em colônias gregas do Mar Negro, especialmente na semi-mítica 'Ilha Branca' (Leuca), onde se dizia que ele habitava após a morte. Reis do Epiro, incluindo Alexandre, o Grande, alegavam descendência de Aquiles através de Neoptólemo, e Alexandre buscou emular seu suposto ancestral, visitando seu túmulo em Troia.
O dramaturgo Ésquilo escreveu uma trilogia sobre Aquiles, a 'Achilleis', que narrava seus feitos na Guerra de Troia, incluindo a vitória sobre Heitor e sua morte por uma flecha de Páris, guiada por Apolo, que o atingiu no calcanhar. Fragmentos dessas obras foram reunidos, como 'Os Mirmidões', que foca na relação de Aquiles com o coro do exército aqueu, tentando convencê-lo a resolver sua disputa com Agamemnon. Sófocles também escreveu uma peça, 'Amantes de Aquiles', da qual restam poucos fragmentos, evidenciando a importância de Aquiles no teatro grego.
No décimo ano da Guerra de Troia, Aquiles e Agamemnon entraram em uma grande disputa. Agamemnon, forçado a libertar Criseida, exigiu Briseida, a serva de Aquiles, como compensação. Injuriado e furioso, Aquiles abandonou a guerra, colocando em risco a vitória grega. A história dessa cólera é o tema central da 'Ilíada', a obra mais lida da Antiguidade, que consagrou a notoriedade do herói. A situação dos gregos tornou-se desesperadora. Pátroclo, sem autorização, usou a armadura de Aquiles e foi para a batalha, onde foi morto por Heitor. Enlouquecido de dor e vingança, Aquiles esqueceu sua contenda com Agamemnon e retornou à batalha, sua fúria incontrolável visando a vingança pela morte de seu amigo.


