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Alceu Collares

Alceu de Deus Collares foi um advogado, servidor público e político brasileiro. Foi Governador do Rio Grande do Sul de 1991 a 1995 e Prefeito de Porto Alegre de 1986 a 1989, sendo o primeiro negro a ocupar ambos os cargos.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 16/07/2026
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Origens e juventude

Alceu Collares nasceu em 7 de setembro de 1927 em um rancho de torrão de Povo Novo, na zona rural de Bagé. Era filho de João de Deus Collares, um quitandeiro que morreu analfabeto, e de Severina Trassante Collares, uma cozinheira de estância e dona de casa, também analfabeta, que possuía origens indígenas. Além de Alceu, o casal teve as filhas Maria e Manuela. Oriundo de uma família muito pobre, vendia frutas da quitanda de seu pai durante a infância para ajudar no sustento da casa. Posteriormente, recordou: "Foi uma infância como todas as infâncias do mundo da periferia, da pobreza, da miséria, da falta até de comida". Na juventude, Collares jogava futebol, uma atividade que começou a praticar aos oito-nove anos de idade e que "entrou na minha vida como uma salvação para quem não tinha nenhuma outra forma de brinquedo ou diversão". Aos treze anos, disse ao pai que não queria mais continuar trabalhando como quitandeiro e pediu que lhe arranjasse outro emprego. Foi então que, em 1941, passou a trabalhar no Correios e Telégrafos de Bagé, entregando telegramas, um cargo oferecido por um amigo de seu pai. Como entregador, recebia 250 réis por mês.

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Ingresso na política

Em 1956, Collares se mudou junto com a esposa e os dois filhos para Porto Alegre, capital do estado, pois havia sido aprovado no vestibular de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Na nova cidade, manteve o cargo de telegrafista, para o qual foi designado ainda em Bagé em 1946. Como recebia pouco, também trabalhou como professor de português na Associação Cristã de Moços (ACM), lecionando para alunos de cursos de preparação para concursos. Em Porto Alegre, Collares interessou-se mais ativamente pela política, inicialmente assistindo aos discursos de Leonel Brizola na Praça da Alfândega. Em 1959, filiou-se ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e atuou como sindicalista, sendo escolhido presidente regional da União Brasileira dos Servidores Postais e Telegráficos (UBSPT). No terceiro ano da faculdade, junto com cinco colegas, dois dos quais advogados, alugou um conjunto comercial na Rua Borges de Medeiros para exercer advocacia. Graduou-se pela Faculdade de Direito da UFRGS em 1960. Em 1961, apoiou a Campanha da Legalidade promovida por Brizola para garantir a posse de João Goulart.

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Deputado federal

— Collares explicando suas posições ideológicas Em 1970, Collares foi eleito deputado federal com 74.918 votos, a segunda maior votação do estado, superado apenas por Sinval Guazzelli, da ARENA. Empossado na Câmara dos Deputados em 1971, tornou-se vice-líder do MDB em 1973 e integrou a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, inclusive como seu vice-presidente. De acordo com Collares, sua atuação parlamentar era "voltada para o social, os trabalhadores, o inquilinato, o funcionário público". Como deputado de oposição, integrou o grupo Autênticos, que defendia medidas mais duras contra a ditadura militar. O objetivo do grupo, conforme Collares, era fazer com que a direção de seu partido "andasse um pouco mais depressa e cutucasse a onça com vara mais curta". Collares reelegeu-se deputado federal em 1974, com 120.702 votos, a maior votação do Rio Grande do Sul naquela eleição. Em 1976, defendeu a instauração de uma CPI para averiguar a estrutura salarial brasileira. Collares era crítico ao modelo econômico do país que, em sua concepção, era "concentrador de renda e elitista", limitando a liberdade de expressão e de organização dos trabalhadores. Nos anos 1970, apoiou a liberdade sindical, a criação do seguro-desemprego, a participação dos trabalhadores nos lucros das empresas, o direito à estabilidade e a alteração dos critérios de definição do salário-mínimo, de modo a acompanhar o custo de vida. Quando João Batista Figueiredo era presidente da República, entregou-lhe uma carta para alertá-lo de que revoltas populares poderiam ocorrer se não houvesse uma maior distribuição de renda.

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Prefeito de Porto Alegre

Com o término de seu mandato parlamentar em 1983, Collares foi nomeado assessor da bancada do PDT na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e advogou para o Banco do Estado do Rio de Janeiro. Em julho de 1985, foi escolhido pela convenção do PDT como candidato da agremiação à prefeitura de Porto Alegre na eleição de novembro, a primeira realizada diretamente desde a ditadura; Glênio Peres foi o candidato a vice. A plataforma eleitoral incluía três prioridades: a regularização das vilas clandestinas, a educação e a saúde. A participação direta da população nas decisões governamentais também era um componente destacado. Durante o período eleitoral, Collares liderou as pesquisas de opinião. Naquelas eleições, juntamente com Edvaldo Brito, candidato em Salvador, sua campanha deu "início ao fenômeno das candidaturas negras competitivas nas capitais brasileiras". O economista Carrion Júnior foi seu maior adversário. Embora Carrion tenha reunido quatro partidos (PMDB, PFL, PCB e PCdoB) em sua Aliança Democrática, Collares foi eleito prefeito com 257 mil votos, ou 45,6%, bem à frente de Carrion, que atingiu 173 mil, ou 30,7%. O petista Raul Pont recebeu 12,1% dos votos e Victor Faccioni, o candidato governista do PDS, conseguiu 10,2%.

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Governador do Rio Grande do Sul

Candidatura ao governo em 1990

— Bordão da campanha de Collares ao governo gaúcho em 1990 Em 1990, Collares lançou-se candidato a governador pela Frente Progressista Gaúcha, formada por PDT, PSDB e PCdoB. José Fogaça (PMDB), Nelson Marchezan (PDS) e Tarso Genro (PT) também se candidataram. Enquanto Collares era apoiado por Brizola, Fogaça recebeu o aval do ex-governador Simon, Marchezan do presidente Fernando Collor e Genro de Luiz Inácio Lula da Silva. A eleição para governador de 1990 foi a primeira com a possibilidade de segundo turno se nenhum candidato ultrapassasse a metade dos votos válidos. No primeiro turno, Collares liderou as pesquisas de opinião e esforçou-se para vencer sem a necessidade de um segundo turno. No entanto, envolveu-se em uma série de ataques e polêmicas. Sua ex-esposa Antônia protagonizou a maior delas ao declarar publicamente que o candidato abandonou a família e omitiu bens. As acusações de Antônia foram replicadas pelos demais candidatos, assim como alegações de que havia praticado improbidade administrativa e incorrido em equívocos como prefeito da capital. Paralelamente, a imprensa divulgou seu casamento "às escondidas" com Neusa Canabarro, ex-secretária de Educação em sua gestão municipal.

Governo

Em 15 de março de 1991, Collares foi empossado como governador do Rio Grande do Sul, o primeiro negro a ocupar o cargo. O país enfrentava uma grave crise econômico-financeira e, na primeira semana de governo, Collares decretou uma moratória da dívida durante dois meses, determinando a suspensão dos pagamentos aos fornecedores e a prioridade do pagamento do funcionalismo. Mantendo a ênfase na participação popular, Collares criou os Conselhos Regionais de Desenvolvimento (Coredes) para a "promoção do desenvolvimento regional harmônico e sustentável". Os Coredes foram mantidos e expandidos nos futuros governos estaduais, auxiliando na definição de políticas públicas que promoveram a redução das diferenças regionais.

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Carreira política posterior

O PDT escolheu Sereno Chaise como candidato ao governo gaúcho no pleito de outubro de 1994, mas ele angariou apenas 5,6% dos votos. No segundo turno, o ex-ministro Antônio Britto derrotou Olívio Dutra, sucedendo Collares como governador em 1º de janeiro de 1995. Com o término do mandato, Collares "decidiu fazer umas experiências como fazendeiro" mas, como a descreveu, "foi um fracasso". Em 1998, elegeu-se deputado federal pela quarta vez, com 41 680 votos, o último colocado dentre os eleitos. Empossado em fevereiro de 1999, exerceu funções de liderança, inclusive como vice-líder do bloco PDT e PPS. Em 2000, Collares concorreu ao executivo de Porto Alegre pela segunda vez. Era o principal opositor ao ex-prefeito petista Tarso Genro, cujo partido comandou a cidade nos três mandatos anteriores. Em abril, afirmou que buscaria uma frente antiPT, complementando: "Vou resgatar o trabalhismo. Não existe direita, esquerda ou centro nesta campanha". No período eleitoral, manteve o discurso antipetista, afirmando ser contrário à presença de seu partido na base do governador Olívio Dutra e que poderia apoiar a tucana Yeda Crusius em um eventual segundo turno contra Genro. Para Collares, os governos petistas aprofundaram a desigualdade na capital.

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Vida pessoal

Casamentos e filhos

Nos anos 1950, Collares iniciou um relacionamento com sua primeira esposa Antônia, com quem teve os filhos Antônio Alceu, Júlio César e Adriana. Júlio César faleceu em 1968, aos dezesseis anos de idade, vítima de um afogamento na Praia de Ipanema, em Porto Alegre. Collares e Antônia permaneceram casados até 1988. Naquele momento, ele era o prefeito de Porto Alegre e Antônia dirigia o Movimento Assistencial de Porto Alegre, exercido tradicionalmente pela primeira-dama do município. Antônia faleceu em 2011, vitimada por um câncer. Após divorciar-se de Antônia, Collares se casou com Neuza Canabarro, uma professora do ensino primário que havia conhecido na década de 1980 por conta de sua participação em uma greve do magistério que, por ter sido considerada ilegal, acarretou em sua demissão como diretora. Neuza coordenou sua campanha ao governo gaúcho em 1982 e à prefeitura em 1985, sendo a secretária de Educação durante ambas as gestões. Neuza concorreu a deputada estadual em 1998 e em 2006 e a vereadora da capital em 2004 e 2008, alcançando a suplência nas quatro candidaturas. Em 2005, foi empossada vereadora.

Religião e espiritualidade

Collares seguia o espiritismo kardecista. Frequentou centros espíritas desde a década de 1950 e estudou no Atheneu Espírita. Em 2011, declarou que sua capacidade mediúnica "não chega a ser grande" e em 2015, abordando suas perdas familiares, afirmou: "O velho lá de cima me proporcionou uma série de aprendizados no campo da espiritualidade. Comecei no catolicismo, depois no kardecismo, umbanda, mas nada disso ameniza essa dor". Collares foi iniciado na Maçonaria, ingressando na Loja Electra nº 21, pertencente à Grande Loja Maçônica do Estado do Rio Grande do Sul em 15/11/1961, onde atingiu o terceiro grau de mestre em 07/02/1973. Esteve filiado posteriormente à Loja República Rio-Grandense nº 174, também da Grande Loja. Ainda por aquela Potência Maçônica, foi Garante de Amizade da Loja "Caridade Santanense", de Santana do Livramento, além de receber a Comenda Atividade Maçônica no Grau de Platina.

Saúde e morte

Em junho de 2017, Collares foi internado em decorrência de uma trombose na perna direita que resultou em embolia pulmonar. Em setembro do mesmo ano, foi submetido a uma cirurgia para a retirada de um tumor. Completou os noventa anos de idade internado em uma unidade de tratamento intensivo do Hospital Mãe de Deus. Em março de 2021, Collares contraiu COVID-19, foi internado no Hospital Mãe de Deus e recebeu alta no mesmo mês. Collares faleceu na madrugada de 24 de dezembro de 2024 em Porto Alegre após ser internado no Hospital Mãe de Deus para tratar uma pneumonia; a causa da morte foi falência de múltiplos órgãos.

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