Aviação do Exército Brasileiro
A Aviação do Exército (AvEx) é o segmento aéreo do Exército Brasileiro, operando aeronaves de asa rotativa (helicópteros) em conjunto com forças de superfície, como a Brigada de Infantaria Aeromóvel. Originalmente fundada com aviões em 1919, ela deixou de existir em 1941, ressurgindo na sua forma atual em 1986. Ela tem principalmente modelos de transporte, além de helicópteros de ataque leves, mas não usa helicópteros de ataque dedicados. Seu Comando (CAvEx) em Taubaté, São Paulo, está vinculado ao Comando de Operações Terrestres, em Brasília, e ao Comando Militar do Sudeste. Ele tem subordinados apenas o 1.º e 2.º batalhões, também em Taubaté. O 3.º e o 4.º estão respectivamente em Campo Grande e Manaus, subordinados aos Comandos Militares do Oeste e da Amazônia, e há um destacamento em Belém, no Comando Militar do Norte.
Aviação de asas fixas (pré-1941)
A primeira experiência aeronáutica do Exército Brasileiro foi o uso de balões de observação em 1867, durante a Guerra do Paraguai. Em seguida, no início do século XX a nova tecnologia do avião entrou na pauta das reformas militares. O país não tinha indústria aeronáutica, e era difícil criar uma escola de aviação. O primeiro piloto de avião do Exército foi o até então tenente, Ricardo Kirk, brevetado na França em 1912. Ele voou missões de reconhecimento na Guerra do Contestado, onde morreu num acidente em 1915. Após o final da Primeira Guerra Mundial o Brasil conseguiu contratar instrutores franceses e importar aviões excedentes. Em 1919 foi criada a Escola de Aviação Militar no Campo dos Afonsos, Rio de Janeiro, para formar os aviadores, observadores e mecânicos. O status da aviação foi elevado ao de Arma em 1927. Ela era a grande novidade no Exército nos anos 1920. Na Revolução Constitucionalista de 1932, foi usada em larga escala pela primeira vez. A partir de 1933 suas unidades operacionais foram instaladas em todo o país, e em 1941 ela já tinha 330 aeronaves, embora muitas obsoletas ou inoperáveis, com um efetivo e estruturas insuficientes para a defesa nacional.
Decisão de reativar (1986)
Após o avião, outra grande novidade tecnológica, o helicóptero bélico, emergiu na Guerra da Coreia e especialmente na Guerra do Vietnã, na década de 1960. Capaz de atravessar qualquer terreno, mostrou-se versátil no transporte e apoio aéreo aproximado das forças terrestres e foi empregado em larga escala pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, onde surgiu o conceito de “cavalaria aérea”. O Exército e a Força Aérea americanas disputaram qual seria a relação hierárquica entre as forças em terra e os helicópteros e chegaram ao Acordo Johnson-McConnell de 1966: as aeronaves de asa rotativa ficariam com o Exército, e de asa fixa com a Força Aérea. No Brasil, o Exército desfrutou do apoio de helicópteros Bell UH-1 Iroquois da FAB no combate à Guerrilha do Araguaia. O Alto Comando do Exército não ignorava a aviação dos demais exércitos sul-americanos, e alguns oficiais brasileiros presenciaram manobras de helicópteros dos exércitos americano e francês.
Implantação
A aviação era a “parte mais badalada da modernização” e o “carro-chefe da FT-90”, mas sua introdução foi difícil. Ela exigia um ônus financeiro e logístico pesado e recursos humanos altamente especializados. Mesmo com um orçamento suficiente, o projeto demoraria ao menos uma década. O general Leônidas se recorda da incredulidade de um interlocutor do governo: “Um exército que não tem nem coturno quer ter helicóptero!” Aeronaves foram compradas e o efetivo inicial treinado na Marinha e na Aeronáutica. Para preservar a cultura organizacional do Exército, os enviados eram capitães e sargentos antigos. A parte mais demorada seria a doutrina de emprego, pois não poderia ser copiada de outro país. Como as aeronaves chegaram antes da doutrina, a aviação passou por cinco grandes reestruturações de sua criação formal, em 1986, até 1994; o importante para o ministro do Exército era aproveitar a conjuntura favorável.
Atuação
O “batismo de fogo” da recém-criada Aviação do Exército foi a Operação Traíra em 1991, uma ofensiva conjunta das Forças Armadas brasileiras e colombianas contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia na fronteira. Participaram helicópteros Esquilo e Pantera e o pessoal de suprimento e manutenção. Eles levaram suprimentos à base no rio Traíra, transportaram o 1.º Batalhão Especial de Fronteira e infiltraram e exfiltraram patrulhas do 1.º Batalhão de Forças Especiais. A operação revelou a necessidade de introduzir regras de voo por instrumentos, navegação por GPS e uma base de aviação na Amazônia. Ao longo da década de 1990 a Aviação do Exército participou de operações contra o garimpo ilegal e o crime organizado no Rio de Janeiro e missões convencionais de presença na fronteira com a Venezuela. A primeira missão internacional foi a Missão de Observadores Militares entre Equador e Peru (MOMEP), em 1997, com a participação de quatro helicópteros na zona de disputa territorial entre os dois países.[a] No século XXI o uso da Aviação do Exército na garantia da lei e da ordem e na colaboração com agências de segurança é crescente. Na intervenção federal no Rio de Janeiro em 2018, os helicópteros serviram para o comando e controle, reconhecimento e desembarque de tropas.
Novas categorias de aeronave
A Aviação do Exército foi criada com helicópteros de Ataque (HA-1 Fennec ou Esquilo), nas esquadrilhas de reconhecimento e ataque, e de Manobra (HM-1 Pantera e posteriormente HM-2 Black Hawk, HM-3 Cougar e HM-4 Jaguar), nas esquadrilhas de emprego geral. Ambos podem usar metralhadoras laterais para sua defesa, mas os de reconhecimento e ataque têm também armamentos axiais como metralhadoras e lançadores de foguetes. Os helicópteros de emprego geral são maiores e têm maior capacidade de transporte. O Exército Brasileiro não tem um helicóptero de ataque dedicado como os usados na França (Tiger) e Estados Unidos (Apache), cujo poder de fogo é superior aos HA-1 brasileiros. Essa lacuna foi abordada no Programa Estratégico Aviação do Exército, formalizado pelo EME em agosto de 2017. As diretrizes estratégicas do Exército passaram a incluir os programas da AvEx, entre eles a aquisição de helicópteros de ataque dedicados e aeronaves de asa fixa para a logística. 12 helicópteros de ataque de fabricação nova seriam comprados até 2031.[b]
Helicópteros
A Bell era a empresa favorita na primeira licitação para a compra de helicópteros, mas surpreendentemente foi derrota pela Aérospatiale, que já possuía uma fábrica no Brasil, a Helibras. A primeira aquisição foi em 1987, e o primeiro helicóptero foi entregue em 21 de abril de 1989. Desde então, o Exército é seu maior cliente de asas rotativas. Inicialmente foram adquiridos 36 HM-1 Pantera e 16 HA-1 Esquilo, e em seguida, 20 Fennec, também designados HA-1. Suas limitações ficaram evidentes: no combate ar-solo, o HA-1 ficaria ao alcance do fogo inimigo e não conseguiria atirar de posições cobertas ou abrigadas. Ele tampouco seria apropriado ao combate ar-ar. Assim, seria inadequado à defesa dos helicópteros de manobra durante o desembarque. Por sua vez, o HM-1 não tinha segurança nas condições limítrofes do peso de decolagem, reduzindo o grupo de combate (GC) que poderia ser transportado de nove a sete homens.
Sistemas de aeronaves remotamente pilotadas
De novembro a dezembro de 2022 a Aviação do Exército incorporou lotes de SARPs das categorias 0, 1 e 2. As categorias classificam o SARP pela sua altitude e raio de ação, autonomia e o escalão de emprego. Resumidamente, a categoria 0 é usada a nível de companhia, a 1 por batalhões e a 2 por grandes unidades como brigadas. Foram recebidos 30 Mavic 2, de categoria 0, quatro Matrice 300 RTK, de categoria 1, ambos da empresa chinesa DJI, e três Nauru 1000C, de categoria 2, da empresa brasileira XMobots. Suas autonomias de voo são respectivamente 31 minutos, 50 minutos e dez horas. Eles têm funções de inteligência, reconhecimento, vigilância e aquisição de alvos, servindo em fronteiras, operações urbanas e operações convencionais. O Nauru 1000C será avaliado no 3.º Batalhão de Aviação do Exército, no Comando Militar do Oeste.
Diferentemente dos tripulantes de helicópteros da FAB, na Aviação do Exército é preciso compreender a manobra terrestre e a linguagem da tropa. Durante as operações, os helicópteros voam baixo, em integração próxima às forças de superfície. Essa aviação confere aeromobilidade e projeção de poder à força terrestre, com numerosas missões: A aviação do Exército tem sido empregada para a realização de missões diretamente voltadas às operações de combate, tais como missões de ataque, de reconhecimento, de segurança, incursões, infiltrações e exfiltrações aeromóveis, no treinamento de tropa em técnicas aeromóveis, apoio ao combate e apoio logístico, bem como no apoio aéreo a diversas unidades, no transporte de pessoal, na evacuação médica, na calibração de tiro de artilharia A função mais importante é o assalto aeromóvel, com tropa embarcada, e assim, a aviação é intimamente ligada à Brigada de Infantaria Aeromóvel. Os helicópteros de manobra transportam a tropa, enquanto os de ataque protegem os de manobra. A operação ocorre de preferência à noite, para reduzir a vulnerabilidade ao inimigo. O ideal é o desembarque em vaga única, mas o Exército não tem condições de transportar uma força-tarefa aeromóvel, do tamanho de um batalhão, de uma vez só.
O mais alto escalão da Aviação do Exército é seu Comando (CAvEx),[g] subordinado operacionalmente ao Comando de Operações Terrestres, em Brasília, e administrativamente ao Comando Militar do Sudeste, em São Paulo. Em sua sede em Taubaté ele comanda o 1.º e 2.º Batalhões de Aviação do Exército (BAvEx), o Centro de Instrução de Aviação do Exército (CIAvEx), o Batalhão de Manutenção e Suprimento de Aviação do Exército (BMS), a Base de Aviação de Taubaté (BAvT) e a Companhia de Comunicações da Aviação do Exército. Entretanto, o CAvEx não comanda a Aviação do Exército inteira. O 3.º e 4.º BAvEx, respectivamente situados em Campo Grande e Manaus, são subordinados aos Comandos Militares do Oeste e da Amazônia, respectivamente, e há também o Destacamento de Aviação do Exército no Comando Militar do Norte (DstAvEx/CMN). Esses batalhões distantes de Taubaté ainda mantém um canal técnico com o CAvEx. Em Brasília há a Diretoria de Material de Aviação do Exército (DMAvEx), subordinada ao Comando Logístico do Exército.
Batalhões de Aviação
As unidades operacionais, os Batalhões, eram chamados Esquadrões até 2005.[h][i] São o 1.º (Falcões), 2.º (Guerreiros), 3.º (Panteras) e 4.º (Onças), respectivamente constituídos em 1986, 1993, 1993 e 1997. As aeronaves de transporte e ataque são combinadas nas mesmas unidades operacionais, imitando os americanos pós-Vietnã. Cada batalhão deve ter duas esquadrilhas de emprego geral (EHEG) e uma de reconhecimento e ataque (EHRA), além de uma de manutenção e suprimento e uma de comando e apoio. A proporção maior das aeronaves de transporte evidencia a função principal de apoio, e não ataque, do batalhão. Na realidade, apenas o 1.º e o 3.º batalhões tinham esquadrilhas de reconhecimento e ataque em 2020.
Centro de Instrução
A atividade aérea é complexa e exige um alto grau de especialização. O CIAvEx forma os recursos humanos da Aviação do Exército: oficiais pilotos e sargentos de várias especialidades (mecânicos de voo, técnicos de manutenção, controladores de tráfego aéreo, meteorologistas, elementos de busca e resgate, bombeiros de aeródromo, etc.). Mais abaixo na hierarquia, soldados incorporados pela conscrição são formados nas próprias unidades. Antes de ingressar na AvEx, os oficiais são formados na Academia Militar das Agulhas Negras e, como tenentes, servem por um período mínimo em unidades terrestres. Na aviação civil, a formação para voar helicópteros é dispendiosa, custando de R$ 80 a 100 mil em São Paulo em 2010. Alguns pilotos da AvEx prosseguem ao mercado de trabalho da aviação civil ao fim do serviço no Exército, aproveitando o caminho mais barato para a qualificação.
Manutenção e logística
A logística da AvEx tem como protagonista o BMS, responsável pela estocagem e distribuição do suprimento. O planejamento, integração e controle da logística cabem à DMAvEx. O CAvEx intermedia essa diretoria e o BMS. A BAvT realiza aquisições no mercado interno a pedido do BMS. Algumas aquisições no mercado interno, principalmente materiais químicos, são realizadas de forma descentralizada pelo 3.º e 4.º BAvEx. As aquisições no mercado externo passam pela Comissão Permanente do Exército Brasileiro em Washington (CEBW) ou pelo Depósito Especial (DE), que tem um contrato com a Airbus Helicopters. O DE minimiza os lead times e garante contratações diretas com o fabricante, mas a necessidade de prévia previsão orçamentária, empenhada à Airbus Helicopters, atrasa o atendimento aos pedidos durante crises econômicas.
Outros componentes
A Base de Aviação de Taubaté é um órgão de gestão administrativa e infraestrutura, com um efetivo de cerca de 800 militares. Ela mantém a Divisão de Aeródromo, que opera a torre de controle, o controle de tráfego aéreo e o serviço de proteção contra incêndio. Em todo o complexo em Taubaté ela fornece a segurança, as refeições, o tratamento médico, o hotel de trânsito e a gestão dos recursos orçamentários, financeiros e patrimoniais. Quando a AvEx deixa sua sede a BAvT monta o novo posto de comando e continua a fornecer o alojamento, refeições, segurança e outros serviços. Nessa situação, ela monta e opera o aeródromo de campanha junto com a Companhia de Comunicações da Aviação do Exército. Criada em 2014, a companhia é responsável pelas ligações de comando e controle.


