Bertha Lutz
Bertha Maria Júlia Lutz foi uma feminista, bióloga, educadora e política brasileira. Filha do médico e pesquisador Adolfo Lutz, participou da organização do movimento pelo sufrágio feminino no Brasil e atuou como representante brasileira em conferências internacionais.
Imagem: Senado Federal · BY · Openverse
Bertha Lutz nasceu em São Paulo no dia 2 de agosto de 1894, filha de Adolfo Lutz, cientista de origem suíça e pioneiro nas áreas de medicina tropical, epidemiologia e na pesquisa de doenças infecciosas, e de Amy Marie Gertrude Fowler, uma enfermeira britânica. O casal teve outro filho, Gualter Adolpho Lutz, nascido em 1903.
Imagem: Senado Federal · BY · Openverse
Trajetória acadêmica
Bertha fez o ensino superior na Europa, formando-se em ciências naturais pela Universidade de Paris (Sorbonne) em 1918, com especialização em anfíbios anuros. Durante sua permanência na universidade, teve contato com o movimento feminista europeu. Por decreto de 3 de setembro de 1919, foi nomeada secretária do Museu Nacional, tomando posse no dia seguinte. Em 1924, passou a participar dos trabalhos da Seção de Botânica e, entre 1927 e 1930, atuou como assistente da Seção de Botânica do Jardim Botânico. Após o término de seu mandato parlamentar em 1937, retornou às atividades no Museu Nacional e substituiu temporariamente o chefe da Seção de Botânica em 1938. Aposentou-se do museu em 1964.
Feminismo
Em 1919, Bertha fundou no Rio de Janeiro a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, formada por um grupo de mulheres de classe média e alta escolaridade. Em 1922, organizou o I Congresso Feminista do Brasil e representou as mulheres brasileiras na Assembleia Geral da Liga das Mulheres Eleitoras, realizada nos Estados Unidos, onde foi eleita vice-presidente da Sociedade Pan-Americana das Mulheres. Após retornar ao Brasil, ajudou a fundar a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), que presidiu e cuja principal bandeira era a reivindicação do voto feminino. A Federação é considerada a principal instituição coletiva de mulheres no país até a década de 1970, e participou da formação de outras associações femininas.
Política
A atuação política de Bertha Lutz antecedeu suas candidaturas eleitorais. À frente da FBPF, estabeleceu relações com parlamentares e integrantes dos governos da Primeira República, defendendo reformas por meio das instituições existentes. Em 1932, criou a Liga Eleitoral Independente e vinculou-se ao Partido Autonomista do Distrito Federal. Candidata à Assembleia Nacional Constituinte de 1933 no pleito de 3 de maio daquele ano, obteve 16.423 votos. Na eleição de 14 de outubro de 1934, concorreu à Câmara dos Deputados pelo Partido Autonomista e recebeu 39.008 votos, alcançando a primeira suplência da legenda. Após a morte do deputado Cândido Pessoa, em 15 de julho de 1936, tomou posse em 28 de julho de 1936. Foi a segunda mulher a exercer o mandato de deputada federal no Brasil, depois de Carlota Pereira de Queirós.
Imagem: Senado Federal · BY · Openverse
Lutz é considerada uma das figuras mais significativas do feminismo e da educação no Brasil do século XX. Ela foi homenageada de várias maneiras. Seu nome foi usado em várias espécies de anfíbios, nomes de logradouros, escolas e premiações. O Laboratório de Análise Internacional ‘Bertha Lutz’ da Universidade de São Paulo (LAI-USP), também foi nomeado em homenagem à cientista brasileira. Ele foi criado por alunos do curso de relações internacionais da instituição com o objetivo de estimular as atividades de graduação. Duas espécies de lagartos brasileiros, Liolaemus lutzae e Phyllopezus lutzae, receberam nomes em homenagem a Bertha Lutz. Entre os anfíbios que a homenageiam estão Pristimantis lutzae, Dendropsophus berthalutzae, Dendrophryniscus berthalutzae, Scinax berthae e Phantasmarana lutzae (anteriormente Megaelosia lutzae). A espécie Aplastodiscus lutzorum foi nomeada em homenagem tanto a Bertha quanto a seu pai, Adolfo Lutz. Por sua vez, Paratelmatobius lutzii, descrita por Bertha Lutz e Antenor Leitão de Carvalho em 1958, recebeu o epíteto em homenagem a Adolfo Lutz, não a Bertha. Em 2020, seu nome foi escolhido para uma nova espécie de raia, a Hypanus berthalutzea.
Diploma Bertha Lutz
O Diploma Bertha Lutz foi instituído pelo Senado Federal do Brasil para agraciar mulheres que tenham oferecido relevante contribuição na defesa dos direitos da mulher e questões do gênero no Brasil. O diploma homenageia Bertha e foi instituído com base em projeto de 1998 apresentado pela senadora Emília Fernandes. É conferido, anualmente, em sessão do Senado especialmente convocada para esse fim, a realizar-se durante as atividades do Dia Internacional da Mulher, e premia cinco mulheres de diferentes áreas de atuação. A apreciação das indicações e a escolha das agraciadas é feita pelo Conselho do Diploma Mulher-Cidadã Bertha Lutz, composto por um representante de cada partido político com assento no Senado Federal.
Documentário
Em 2021, a HBO lançou o documentário Bertha Lutz — A mulher na carta da ONU, sobre o importante papel da bióloga e feminista brasileira em assegurar que questões de gênero fossem contempladas nas bases da Organização das Nações Unidas (ONU). A ideia do documentário surgiu a partir das pesquisas da argelina Fatima Sator e da norueguesa Elise Luhr Dietrichson, que estudavam na Universidade de Londres quando encontraram uma série de cartas escritas por Bertha Lutz.
Quadrinhos
Em 2022, o selo OH! Outra História, da Editora Veneta, lançou uma biografia em quadrinhos de Bertha Lutz. O álbum foi criado por Angélica Kalil e Mariamma Fonseca e baseia-se em um texto de memórias escrito pela própria Lutz. Bertha Lutz e a Carta da ONU é uma HQ (história em quadrinhos) criada a partir do texto Reminiscences of the San Francisco Conference that founded the United Nations, de autoria da Bertha. O documento, originalmente redigido em língua inglesa e até a publicação dessa história emquadrinhos inédito em língua portuguesa, está salvaguardado na Fawcett Library, London Guildhall University, no fundo Margery Corbett Ashby (caixa 483), na Inglaterra. Trata-se das lembranças escritas de Bertha Lutz, sobre sua participação na Conferência de São Francisco, ocorrida entre abril e junho de 1945, mas, segundo a historiadora e professora da Universidade de Brasília, Teresa Cristina de Novaes Marques, elaboradas somente na década de 1970. Já aposentada e longe de suas atividades profissionais, Lutz anotou a sua experiência como plenipotenciária, ou seja, como delegada que tinha direito ao voto naquela conferência que prepararia a Carta das Nações Unidas.


