Martinho Lutero
Martinho Lutero ou Martim Lutero foi um padre, teólogo, autor, compositor de hinos, professor e ex-frade agostiniano alemão. Lutero foi a figura seminal da Reforma Protestante e suas crenças teológicas formam a base do Luteranismo. Ele é amplamente considerado uma das figuras mais influentes da história ocidental e cristã.
A 15 de junho de 1520, o Papa advertiu Lutero, com a bula "Exsurge Domine", onde o ameaçava com a excomunhão, a menos que, num prazo de setenta dias, repudiasse 41 pontos de sua doutrina, destacados pela Igreja. Em outubro de 1520, Lutero enviou seu escrito "A Liberdade de um Cristão" ao Papa, acrescentando a frase significativa: "Eu não me submeto a leis ao interpretar a palavra de Deus". Enquanto isso, um rumor chegara de que Johan Ech saíra de Meissem com uma proibição papal, enquanto este se pronunciara realmente a 21 de setembro. O último esforço de paz de Lutero foi seguido, em 10 de dezembro, da queima da bula, que já tinha expirado há 120 dias, e o decreto papa de Vitemberga, defendendo-se com seus "Warum des Papstes und seiner Jünger Bücher verbrannt sind" e "Assertio omnium articulorum". O Papa Leão X excomungou Lutero a 3 de janeiro de 1521, na bula "Decet Romanum Pontificem".
Nascimento, infância e família
Filipe Melâncton, o principal companheiro de Martinho Lutero na reforma luterana, escreveu após a morte do reformador um breve trabalho intitulado Historia de Vita et Actis Lutheri, que narra alguns poucos fatos e lembranças da vida do reverendo, compilados através de conversas com familiares de Martinho. Melâncton expõe na sua obra que Lutero nasceu na cidade de Eisleben, na Saxônia, durante as onze horas da noite, e que teria sido batizado com o seu nome em homenagem a São Martinho de Tours, pois nascera no décimo dia de novembro, um dia antes da memória de São Martinho no calendário hagiológico católico romano. Ainda é relatado que a família de Lutero em geral considerava o ano de 1483 como o ano no qual ele teria nascido, entretanto, o próprio citou anos diferentes do seu nascimento, como 1482 e 1484. Martinho Lutero relata em uma de suas cartas que teria sido batizado na igreja de São Pedro em Eisleben.
Educação
Era do desejo da família de Lutero, e mais especialmente de seu pai, que ele estudasse para se tornar um advogado. Hans Luder, como era um homem moderadamente ambicioso, desejava que as condições da família viessem a melhorar. Com esse objetivo, em 1490, por volta dos seis anos do menino, ele ingressou seu filho na escola latina de Mansfeld, onde Martinho aprendeu música, junto de gramática, retórica e lógica, as matérias triviais da educação medieval. Lutero mais tarde comparou sua educação lá ao purgatório e ao inferno. Após tomar contato com a língua latina Lutero fixou finalmente a versão de seu nome que usaria pelo resto de sua vida, em seus trabalhos e documentos, trocando o alemão Luder para a versão latinizada Luther, inspirando-se aparentemente no nome de Leotário II, imperador romano-germânico e duque da Saxônia, ou no vocábulo grego eleútheros (ἐλεύθερος), que significa "livre", do qual usou por um tempo o nome latino derivado Eleutherius.
Vida monástica e académica
O jovem Martinho Lutero dedicou-se por completo à vida no mosteiro, empenhando-se em realizar boas obras a fim de agradar a Deus e servir ao próximo através de orações por suas almas. Dedicou-se intensamente à meditação, às autoflagelações, às muitas horas de oração diárias, às peregrinações e à confissão. "Se alguém pudesse alcançar o céu como monge, certamente teria sido eu", disse Lutero. Quanto mais tentava ser agradável ao Senhor, mais se dava conta de seus pecados. Lutero descreveu este período de sua vida como um período de profundo desespero espiritual. Ele disse: “Perdi contato com Cristo, o Salvador e Consolador, e fiz dele o carcereiro e carrasco da minha pobre alma”. Lutero inicialmente ficou como hóspede no mosteiro agostiniano em Erforte e fez sua primeira confissão geral diante do prior Winand von Diedenhofen. Ele provavelmente foi aceito no noviciado durante o outono de 1505 e entregue ao mestre de noviços Johannes von Paltz. Com a profissão em setembro de 1506, Lutero foi finalmente aceito como monge. Seus superiores decidiram que ele deveria se tornar padre e depois estudar teologia. Ele estudou a interpretação de Gabriel Biel do Canon Missae. Em 4 de abril de 1507, o Bispo Auxiliar Johann Bonemilch von Laasphe o ordenou sacerdote na Catedral de Erforte. Os superiores da ordem confiavam no desenvolvimento de Lutero e esperavam muito dele, enquanto ele próprio se sentia inadequado.
O início da Reforma
Além de suas atividades como professor, Martinho Lutero ainda colaborava como pregador e confessor na igreja de Santa Maria, na cidade. Também pregava habitualmente na Igreja do Castelo, também chamada de "Todos os Santos", porque ali havia uma coleção extensa de relíquias, estabelecidas por Frederico III da Saxônia. Foi durante esse período que o jovem sacerdote desenvolveu sua crença na justificação somente pela fé e se deu conta dos problemas que o oferecimento de indulgências aos fiéis, como se esses fossem fregueses, poderia acarretar. A indulgência é a remissão, parcial ou total, do castigo temporal imputado a alguém por conta dos seus pecados, aplicável apenas a alguém que esteja em estado de graça, ou seja, livre de pecados graves, e arrependido de todos os seus pecados veniais.
Resposta do papado
Depois de fazer pouco caso de Lutero, dizendo que ele seria um "alemão bêbado que escrevera as teses", e afirmando que "quando estiver sóbrio mudará de opinião", o Papa Leão X ordenou, em 1518, ao professor de teologia dominicano Silvestro Mazzolini que investigasse o assunto. Este denunciou que Lutero se opunha de maneira implícita à autoridade do Sumo Pontífice, quando discordava de uma de suas bulas. Declarou que Lutero era um herege e escreveu uma refutação acadêmica às suas teses. Nela, mantinha a autoridade papal sobre a Igreja e condenava as teorias de Lutero como um desvio e uma apostasia. Lutero replicou de igual forma (academicamente), dando assim início à controvérsia.
Processo romano
Em Junho de 1518, foi aberto o processo contra Lutero, com base na publicação das suas 95 Teses. Alegava-se, com o exame do processo, que ele incorria em heresia. Nas aulas que ministrava na Universidade de Vitemberga, espiões registravam seus comentários negativos sobre a excomunhão. Depois disso, em agosto de 1518, o processo foi alterado para heresia notória. Lutero foi convidado a ir a Roma, onde teria que desmentir sua doutrina. Lutero recusou-se a fazê-lo, alegando razões de saúde; e pretendeu uma audiência em território alemão. O seu pedido baseava-se no argumento (Gravamina) da Nação Alemã. Seu pedido foi aceito, ele foi convidado para uma audiência com o cardeal Caetano de Vio (Tomás Caetano), durante a reunião das cortes (Reichstag) imperiais de Augsburg. Entre 12 e 14 de outubro de 1518, Lutero falou a Caetano. Este pediu-lhe que revogasse sua doutrina. Lutero recusou-se a fazê-lo.
Foi o autor de uma das primeiras traduções da Bíblia para alemão, algo que não era permitido até então sem especial autorização eclesiástica. Lutero, contudo, não foi o primeiro tradutor, pois já havia várias mais antigas. A tradução de Lutero, no entanto, suplantou as anteriores porque utilizou uma forma unificada do Hochdeutsch (dialetos alemães da região central e sul) e foi amplamente divulgada em decorrência da sua difusão por meio da imprensa, desenvolvida por Gutenberg, em 1453. A primeira parte da bíblia, o Novo Testamento, foi publicado em setembro de 1522, para a Feira do Livro de Leipzig. Foram impressas 3 mil cópias, cada uma custando de meio a 1,5 gulden. Lutero introduziu a palavra alleyn, que não aparece no texto grego original no capítulo 3:28 da Epístola aos Romanos, o que gerou controvérsia. Lutero justificou a manutenção do advérbio como sendo uma necessidade idiomática do alemão como por ser a intenção de Paulo. A primeira edição se esgotou em três meses, exigindo que reimpressões fossem feitas rapidamente. A primeira edição foi chamada de "Testamento de setembro", e a segunda, revisada, de "Testamento de dezembro". Em 1534, Lutero terminou a tradução do Antigo Testamento, lançando a versão completa da bíblia que, até a morte do reformador, teve cerca de 200 mil cópias publicadas. Para esse trabalho, contou com a ajuda de vários outros teólogos e linguistas já que não dominava tão bem o hebraico antigo e o aramaico como o latim e o grego antigo.
Antissemitismo
"A Alemanha deve ficar livre de judeus, aos quais após serem expulsos, devem ser despojados de todo dinheiro e joias, prata e ouro, e que fossem incendiadas suas sinagogas e escolas, suas casas derrubadas e destruídas (…), postos sob um telheiro ou estábulo como os ciganos (…), na miséria e no cativeiro assim que estes vermes venenosos se lamentassem de nós e se queixassem incessantemente a Deus". — "Sobre os Judeus e Suas Mentiras" de Martinho Lutero. O historiador Robert Michael escreve que Lutero estava preocupado com a questão judaica toda a sua vida, apesar de dedicar apenas uma pequena parte de seu trabalho para ela. Seus principais trabalhos sobre os judeus são Von den Juden und ihren Lügen ("Sobre os Judeus e Suas Mentiras") e Vom Schem Hamphoras und vom Geschlecht Christi ("Do Inefável Nome e da Santa linhagem de Cristo") — reimpressas cinco vezes quando era vivo — ambas escritas em 1543, três anos antes de sua morte. Nesses trabalhos Lutero afirmou que os judeus já não eram o povo eleito, mas o "povo do diabo". A sinagoga era como "uma prostituta incorrigível e uma devassa maléfica" e os judeus estavam "cheios das fezes do demónio,... nas quais se rebolam como porcos" Lutero aconselhou as pessoas a incendiarem as sinagogas, destruindo os livros judaicos, proibir os rabinos de pregar, e apreender os bens e dinheiro dos Judeus e também expulsá-los ou fazê-los trabalhar forçosamente. Lutero também parecia aconselhar seus assassinatos, escrevendo "É nossa a culpa em não matar eles".
Guerra dos Camponeses
A Guerra dos Camponeses (1524-1525) foi, de muitas maneiras, uma resposta aos discursos de Lutero e de outros reformadores. Revoltas de camponeses já tinham existido em pequena escala em Flandres (1321-1323), na França (1358), na Inglaterra (1381-1388), durante as guerras hussitas do século XV, e muitas outras até o século XVIII. Mas muitos camponeses julgaram que os ataques verbais de Lutero à Igreja e sua hierarquia significavam que os reformadores iriam igualmente apoiar um ataque armado à hierarquia social. Por causa dos fortes laços entre a nobreza hereditária e os líderes da Igreja que Lutero condenava, isso não seria surpreendente. Já em 1522, enquanto Lutero estava em Wartburg, seu seguidor Thomas Münzer, comandou massas camponesas contra a nobreza imperial, pois propunha uma sociedade sem diferenças entre ricos e pobres e sem propriedade privada, Lutero por sua vez defendia que a existência de "senhores e servos" era vontade divina, motivo pelo qual eles romperam. Lutero, desde cedo, argumentou com a nobreza e os próprios camponeses sobre uma possível revolta e também sobre Müntzer, classificando-o como um dos "profetas do assassínio" e colocando-o como um dos mentores do movimento camponês. Lutero escreveu a "Terrível História e Juízo de Deus sobre Tomas Müntzer", inaugurando essa linha de pensamento.
Discordância com João Calvino
No movimento reformista (também chamado de Reforma), Lutero não concordou com o "estilo" de reforma de João Calvino. Martinho Lutero queria reformar a Igreja Católica, enquanto João Calvino, acreditava que a Igreja estava tão degenerada, que não havia como reformá-la. Calvino se propunha a organizar uma nova Igreja que, na sua doutrina (e também em alguns costumes), seria idêntica à Igreja Primitiva. Já Lutero decidiu reformá-la, mas afastou-se desse objetivo, fundando, então, o Protestantismo, que não seguia tradições, mas apenas a doutrina registrada na Bíblia, e cujos usos e costumes não ficariam presos a convenções ou épocas. A doutrina luterana está explicitada no "Livro de Concórdia", e não muda, embora os costumes e formas variem de acordo com a localidade e a época.


