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Charles Fourier

François Marie Charles Fourier foi um socialista francês da primeira parte do século XIX, um dos pais do cooperativismo. Foi também um crítico ferrenho do economicismo e do capitalismo de sua época, e adversário da industrialização, da civilização urbana, do liberalismo e da família baseada no matrimônio e na monogamia.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 12/07/2026
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Biografia

Nascido em Besançon, filho de um modesto homem de negócios, Fourier estava mais interessado na arquitetura que nos negócios de seu pai. De fato, queria converter-se em engenheiro, mas a Escola de Engenharia Militar aceitava somente filhos da nobreza. Mais tarde Fourier se alegraria em não ter se tornado um engenheiro, porque segundo ele, esta profissão lhe teria consumido muito tempo, afastando-o de seu verdadeiro desejo: ajudar a Humanidade. Em Julho de 1781, logo após a morte de seu pai, Fourier herda dois quintos de sua fortuna, avaliada em mais de 200 000 francos. Esta repentina riqueza lhe permite a liberdade de viajar através da Europa por prazer. Em 1791 muda-se de Besançon para Lyon, onde trabalha para o mercador M. Bousquet. Em suas viagens, vai também a Paris onde trabalha como chefe de Oficina de Estatísticas por alguns meses. Fourier não concordava com viajar para benefícios alheios. A fim de obter conhecimentos em tudo o que pudesse, Fourier mudaria de emprego e residência para experimentar novas coisas. Entre 1791 e 1816 trabalhou em Paris, Ruão, Lyon, Marselha, e Bordéus como viajante de negócios e agente dos correios, período em que não dispunha de muito tempo para suas investigações. Deixando-se "servir à vontade dos mercadores" e da estupefação das tarefas "enganosas e degradantes". Em seus pensamentos havia três elementos principais: as pessoas que conheceu como viajante de negócios, os periódicos e a introspecção. Seu primeiro livro foi publicado em 1808.

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Crítica à "civilização"

Grande parte das críticas de Fourier são voltadas contra as posições que justificam e perpetuam o sofrimento humano como é o caso do cristianismo, do conservadorismo ou do niilismo. Nesse sentido que identifica no centro do cristianismo a imagem do pecado original. "Fourier encarna um momento único do pensamento ocidental; levando a crítica à religião, elaborada pelo movimento filosófico, até às últimas consequências lógicas, até o rechaço da moral da família e da hierarquia social e simboliza todo um momento em que a reação pós-revolucionária estava em todo seu apogeu, se sustentando ainda por muito tempo boa parte das conquistas intelectuais do século XVIII". Nesta mesma linha argumentativa vinculava a ideia de civilização a um sentido pejorativo, reconhecendo nesta uma forma social contemporânea a ser superada. Desta forma Fourier transcendida o economicismo de grande parte do pensamento socialista de sua época e de momentos posteriores. Assim não só criticava as estruturas econômicas do capitalismo, mas também a moral inteira da sociedade contemporânea e seus costumes.

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As paixões e o livre desenvolvimento da personalidade

Hakim Bey na seguinte citação resume a crítica de Fourier à civilização: As misérias da Civilização têm desviado a Terra e a humanidade de seu próprio destino em um sentido literalmente cósmico. A Paixão, a qual temos aprendido a entender como "o mal", é de fato, virtualmente, o princípio divino. Os seres humanos são estrelas microscópicas, e todas as paixões e desejos (incluindo os "fetiches" e as "perversões") são por natureza não somente boas, mas sim necessárias para a realização do destino dos humanos. No sistema de Harmonia de Fourier todas atividades criativas incluindo a indústria, o artesanato, a agricultura (etc.) surgiram da libertação da paixão — esta é a famosa teoria do "trabalho atrativo". Fourier sexualiza o próprio trabalho — a vida do Falanstério é uma contínua orgia do sentimento intenso, do pensamento e da atividade, uma sociedade de amantes e selvagens entusiastas. Quando a vida social da terra é harmonizada, nosso planeta voltará a ser incorporado ao universo da Paixão e serão experimentadas vastas transformações na forma do corpo humano, no tempo atmosférico, nos animais e nas plantas, e mesmo nos oceanos.

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O cooperativismo como alternativa

Não sacrificais a felicidade de hoje em nome da felicidade futura. Desfrutai do momento, evitai toda associação de matrimônio ou de interesse que não satisfaça as vossas paixões no mesmo instante. Por que trabalhar pela felicidade futura, se ela se sobrepõe aos vossos desejos, e, na ordem combinada, tereis apenas um desprazer: o de não poder dobrar a duração dos dias, a fim de que eles comportem o imenso círculo de gozos que tereis a percorrer. Diante deste panorama Fourier propunha uma alternativa cooperativista. Se se permitisse às pessoas realizar livremente suas inclinações ou paixões se produziria um estado de equilíbrio entre todos, ou como o chamou, harmonia. Como fundamento da tese de Fourier estava a possibilidade de se estabelecer uma sociedade verdadeiramente justa, para a qual propôs a fundação de falanstérios (comunidades); os benefícios obtidos seriam repartidos entre os membros da falange e os capitalistas que houvessem investido dinheiro em sua construção. Uma das cooperativas mais famosas idealizada por Fourier foi a Coopérative des bijoutiers em Doré. Fourier pretendia convencer os capitalistas a proporcionarem recursos necessários para a construção de Falanstérios, no entanto, nenhum deles aceitaria sua proposta.

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Influência

Nas revoltas do século XIX e fundação dos falanstérios

As ideias de Fourier tiveram influência nas revoluções populares de 1848 conhecidas como Primavera dos povos através de seguidores como Victor Considérant. A essa época na América do Norte e na América do Sul foram fundadas diversas comunidades intencionais por seguidores, geralmente imigrantes europeus. Entre outros, no Brasil surgiram o Falanstério do Saí em Santa Catarina e a Colônia Cecília no Paraná, enquanto nos Estados Unidos foram erguidos A Utopia, em Ohio, La Réunion no Texas, e a Falange Norte-americana em Nova Jersey. Os escritos de Fourier foram incluídos pela igreja católica no Index Librorum Prohibitorum lista daquelas publicações que a Igreja Católica catalogou como livros perniciosos para a fé. O propósito desta lista era prevenir a leitura de livros ou trabalhos imorais que contivessem erros teológicos ou morais e prevenir da corrupção seus fiéis.

Marxismo e o rótulo de socialismo utópico

Não tardaria para que uma vertente do pensamento progressista se levantasse em crítica ao Fourierismo. Já em seu Manifesto do Partido Comunista os jovens Marx e Engels buscariam de todas as maneiras diferenciar sua proposta de socialismo daquela elaborada por pensadores como por Saint-Simon, Charles Fourier, Louis Blanc e Robert Owen, considerada por eles fantasiosa uma vez que buscava transformar radicalmente a sociedade sem uma ênfase no conflito entre as classes, e através da boa vontade e participação de todos. Neste mesmo sentido os marxistas conferiram ao seu próprio projeto um suposto cunho científico (comunismo científico) que não estaria presente na obra daqueles que rotularam de socialistas utópicos.

Século XX

Na metade do século XX, as ideias de Fourier interessaram diversos intelectuais socialistas que se encontravam fora do mainstream marxista. Depois que os surrealistas romperam com o Partido Comunista Francês, André Breton escreveu o poema Ode à Charles Fourier em 1947. No livro clássico de freudo-marxismo de Herbert Marcuse da década de cinquenta Eros e a civilização, Fourier é mencionado como representante importante da tradição hedonista. Não é por acidente que o trabalho de Fourier está se convertendo em tópico outra vez dentro da intelligentsia avant-garde das esquerdas. Como Marx e Engels aceitaram, Fourier foi o primeiro a fazer clara a diferença qualitativa entre a sociedade livre e não livre. E nisto ele jamais retrocedeu, como Marx todavia o fez, ao falar de uma sociedade possível, na qual o trabalho se converte em jogo, uma sociedade na qual até o trabalho socialmente necessário pode ser organizado em harmonia com as necessidades liberadas genuínas do homem.

Na contemporaneidade

Contemporaneamente pode-se constatar a grande influência do pensamento de Fourier nos escritos de intelectuais libertários como Hakim Bey, Paul Goodman, Bob Black e P.M.. Em diversas passagens de sua obra, mas principalmente em seu artigo O Oceano de Limonada e os Tempos Modernos, Hakim Bey traz à tona reflexões acerca das experiências fourieristas na constituição de estratégias de comunalismo libertário. "A nova Pantarquia Universal e o novo Falanstério Norte-americano será inicialmente uma sociedade experimental de investigações (ainda assim, de homenagem e recriação, fiel ao empoeirado estilo do século XIX!) — mas também, e quem sabe, mais importante, este feito pode se converter em um núcleo de associação. Planejamos fazer excursões aos lugares originais de Modern Times e de outros falanstérios; pretendemos ressuscitar a tradição fourierista dos banquetes; pensamos construir um templo em honra a Fourier e ao Pantarca; pode ser inclusive que cheguemos longe o suficiente para produzir outro boletim de notícias!(…) E talvez nossas investigações realmente nos levem a futuros experimentos mais avançados sobre a criação de zonas autônomas temporárias, tempos e espaços livres escavados nas muralhas da Babilônia — autonomia criativa e camaradagem nas zonas proibidas, locais onde o poder terá 'desaparecido' — E (quem sabe?) pode ser que até mesmo nossas vidas se rendam a este ímpeto de mudança… Um excêntrico? Sim, sou um excêntrico: um pequeno dispositivo que causa revoluções!"

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Fontes consultadas

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