Iluminismo
Iluminismo foi o movimento intelectual e filosófico que ocorreu na Europa nos séculos XVII e XVIII. Apresentou uma série de ideias sociais centradas no valor do conhecimento aprendido por meio do racionalismo e do empirismo e ideais políticos como o direito natural, a liberdade e o progresso, a tolerância, a fraternidade, o governo constitucional e a separação formal entre Igreja e Estado.
A Era do Iluminismo foi precedida e intimamente associada à Revolução Científica. Os primeiros filósofos cujo trabalho influenciou o Iluminismo incluem Francis Bacon, Pierre Gassendi, René Descartes, Thomas Hobbes, Baruch Spinoza, John Locke, Pierre Bayle e Gottfried Wilhelm Leibniz. Algumas das principais figuras do período incluem Cesare Beccaria, George Berkeley, Denis Diderot, David Hume, Immanuel Kant, Lord Monboddo, Montesquieu, Jean-Jacques Rousseau, Adam Smith, Hugo Grotius e Voltaire. Uma publicação influente do Iluminismo foi a Encyclopédie (Enciclopédia). Publicado entre 1751 e 1772 em 35 volumes, foi compilado por Diderot, Jean le Rond d'Alembert e uma equipe de 150 pessoas. A obra ajudou a espalhar as ideias do Iluminismo por toda a Europa e além.
Filosofia
O empirismo de Bacon e a filosofia racionalista de Descartes lançaram as bases para o pensamento iluminista. A tentativa de Descartes de construir as ciências sobre uma base metafísica segura não foi tão bem-sucedida quanto seu método de dúvida aplicado em áreas filosóficas, levando a uma doutrina dualista de mente e matéria. Seu ceticismo foi refinado pelo Ensaio acerca do Entendimento Humano (1690), de Locke, e pelos escritos de Hume na década de 1740. O seu dualismo foi desafiado pela afirmação intransigente de Espinoza sobre a unidade da matéria nas obras Tractatus (1670) e Ética (1677). Segundo Jonathan Israel, estes estabeleceram duas linhas distintas de pensamento iluminista: primeiro, a variedade moderada, seguindo Descartes, Locke e Christian Wolff, que buscava acomodação entre a reforma e os sistemas tradicionais de poder e fé, e, segundo, o Iluminismo Radical, inspirado na filosofia de Espinoza, defendendo a democracia, a liberdade individual, a liberdade de expressão e a erradicação da autoridade religiosa. A variedade moderada tendia a ser deísta, enquanto a tendência radical separava inteiramente a base da moralidade da teologia. Ambas as linhas de pensamento acabaram por ser combatidas por um contrailuminismo conservador que procurava um regresso à fé.
Ciência
A ciência desempenhou um papel importante no discurso e no pensamento iluminista. Muitos escritores e pensadores do período tinham formação em ciências e associavam o avanço científico à derrubada da religião e da autoridade tradicional em favor do desenvolvimento da liberdade de expressão e pensamento. Houve resultados práticos imediatos. As experiências de Antoine Lavoisier foram usadas para criar as primeiras fábricas químicas modernas em Paris e as experiências dos irmãos Montgolfier permitiram-lhes lançar o primeiro voo tripulado num balão de ar quente em 1783. Em termos gerais, a ciência iluminista valorizava muito o empirismo e o pensamento racional e estava inserida no ideal de avanço e progresso. O estudo da ciência, sob o título de filosofia natural, foi dividido em física e um agrupamento conglomerado de química e história natural, que incluía anatomia, biologia, geologia, mineralogia e zoologia. Tal como acontece com a maioria das visões iluministas, os benefícios da ciência não eram vistos universalmente: Rousseau criticava as ciências por distanciarem o homem da natureza e não operarem para tornar as pessoas mais felizes.
Sociologia, economia e direito
Hume e outros pensadores iluministas escoceses desenvolveram uma "ciência do homem", que foi expressa historicamente em obras de autores como James Burnett, Adam Ferguson, John Millar e William Robertson, todos os quais fundiram um estudo científico de como os humanos se comportavam em culturas antigas e primitivas com uma forte consciência das forças determinantes da modernidade. A sociologia moderna originou-se em grande parte deste movimento e dos conceitos filosóficos de Hume que influenciaram diretamente James Madison (e, portanto, a Constituição dos EUA), e como popularizados por Dugald Stewart foram a base do liberalismo clássico. Em 1776, Adam Smith publicou A Riqueza das Nações, frequentemente considerada a primeira obra sobre economia moderna, pois teve um impacto imediato na política económica britânica que continua até ao século XXI. Foi imediatamente precedido e influenciado pelos rascunhos de Reflexões sobre a Formação e Distribuição da Riqueza (1766), de Anne Robert Jacques Turgot. Smith reconheceu a dívida e possivelmente foi o tradutor original em inglês.
Política
O Iluminismo tem sido visto há muito tempo como a base da cultura política e intelectual ocidental moderna. Trouxe modernização política ao Ocidente, em termos de introdução de valores e instituições democráticas e da criação de democracias liberais modernas. Esta tese foi amplamente aceita pelos estudiosos e foi reforçada pelos estudos em larga escala de Robert Darnton, Roy Porter e, mais recentemente, de Jonathan Israel. O pensamento iluminista teve profunda influência no campo político. Governantes europeus como Catarina II da Rússia, José II da Áustria e Frederico II da Prússia tentaram aplicar o pensamento iluminista à tolerância religiosa e política, o que ficou conhecido como absolutismo esclarecido. Muitas das principais figuras políticas e intelectuais por trás da Revolução Americana associaram-se intimamente ao Iluminismo: Benjamin Franklin visitou a Europa repetidamente e contribuiu ativamente para os debates científicos e políticos lá e trouxe as ideias mais recentes de volta à Filadélfia; Thomas Jefferson seguiu de perto as ideias europeias e mais tarde incorporou alguns dos ideais do Iluminismo na Declaração da Independência; e Madison incorporou esses ideais na Constituição dos EUA durante sua elaboração em 1787.
Religião
Não é necessária uma grande arte ou uma eloquência magnificamente treinada para provar que os cristãos devem tolerar uns aos outros. Eu, no entanto, vou além: Digo que devemos considerar todos os homens como nossos irmãos. O quê? O turco é meu irmão? O chinês é meu irmão? O judeu? O siamês? Sim, sem dúvida; não somos todos filhos do mesmo pai e criaturas do mesmo Deus? O comentário religioso da era do Iluminismo foi uma resposta ao século anterior de conflito religioso na Europa, especialmente a Guerra dos Trinta Anos. Os teólogos do Iluminismo queriam reformar sua fé para suas raízes geralmente não confrontacionais e limitar a capacidade da controvérsia religiosa de se espalhar para a política e a guerra, mantendo, ao mesmo tempo, uma fé verdadeira em Deus. Para os cristãos moderados, isso significou um retorno às Escrituras simples. Locke abandonou o corpus de comentários teológicos em favor de um "exame imparcial" somente da Palavra de Deus. Ele determinou que a essência do cristianismo é a crença em Cristo e recomendou evitar debates mais detalhados. Anthony Collins, um dos livres-pensadores ingleses, publicou seu "Ensaio sobre o uso da razão em proposições cuja evidência depende do testemunho humano" (1707), no qual rejeita a distinção entre "acima da razão" e "contrário à razão" e exige que a revelação deva estar em conformidade com as ideias naturais do homem sobre Deus. Na Bíblia de Jefferson, Thomas Jefferson foi mais longe e abandonou todas as passagens que tratavam de milagres, visitas de anjos e a ressurreição de Jesus após sua morte, enquanto tentava extrair o código moral cristão prático do Novo Testamento.
O Iluminismo se consolidou na maioria dos países europeus e influenciou nações em todo o mundo, muitas vezes com uma ênfase local específica. Por exemplo, na França, tornou-se associado ao radicalismo anti-governamental e anti-clerical, enquanto na Alemanha atingiu profundamente as classes médias, onde expressou um tom espiritualista e nacionalista sem ameaçar governos ou igrejas estabelecidas. As respostas do governo variaram muito. Na França, o governo era hostil e os philosophes lutavam contra sua censura, às vezes sendo presos ou forçados ao exílio. O governo britânico, em grande parte, ignorou os líderes iluministas na Inglaterra e na Escócia, embora tenha concedido a Isaac Newton o título de cavaleiro e um cargo governamental muito lucrativo. Um tema comum entre a maioria dos países que derivaram ideias iluministas da Europa foi a não inclusão intencional de filosofias iluministas relativas à escravidão. Originalmente durante a Revolução Francesa, uma revolução profundamente inspirada pela filosofia do Iluminismo, "o governo revolucionário da França denunciou a escravidão, mas os 'revolucionários' proprietários então se lembraram de suas contas bancárias". A escravidão frequentemente mostrou as limitações da ideologia iluminista no que se refere ao colonialismo europeu, uma vez que muitas colônias da Europa operavam em uma economia de plantação alimentada pelo trabalho escravo. Em 1791, eclodiu a Revolução Haitiana, uma rebelião de escravos emancipados contra o domínio colonial francês na colônia de Saint-Domingue. As nações europeias e os Estados Unidos, apesar do forte apoio aos ideais iluministas, recusaram-se a "dar apoio à luta anticolonial de Saint-Domingue".
Grã-Bretanha
No Iluminismo escocês, os princípios de sociabilidade, igualdade e utilidade foram disseminados nas escolas e universidades, muitas das quais utilizavam métodos de ensino sofisticados que combinavam filosofia com a vida cotidiana. As principais cidades escocesas criaram uma infraestrutura intelectual de instituições de apoio mútuo, como escolas, universidades, sociedades de leitura, bibliotecas, periódicos, museus e lojas maçónicas. A rede escocesa era "predominantemente calvinista liberal, newtoniana". Na França, Voltaire disse "olhamos para a Escócia para todas as nossas ideias de civilização". O foco do Iluminismo escocês variou de questões intelectuais e econômicas até as especificamente científicas, como no trabalho de William Cullen, médico e químico; James Anderson, agrônomo ; Joseph Black, físico e químico; e James Hutton, o primeiro geólogo moderno.
Estados alemães
A Prússia assumiu a liderança entre os estados alemães ao patrocinar as reformas políticas que os pensadores iluministas instaram os governantes absolutos a adotar. Houve também movimentos importantes nos estados menores da Baviera, Saxônia, Hanôver e Palatinado. Em cada caso, os valores do Iluminismo foram aceitos e levaram a reformas políticas e administrativas significativas que lançaram as bases para a criação de estados modernos. Os príncipes da Saxônia, por exemplo, realizaram uma série impressionante de reformas fiscais, administrativas, judiciais, educacionais, culturais e econômicas gerais fundamentais. As reformas foram auxiliadas pela forte estrutura urbana do país e pelos grupos comerciais influentes e modernizaram a Saxônia pré-1789 de acordo com os princípios clássicos do Iluminismo.
Monarquia dos Habsburgos
O reinado de Maria Teresa, a primeira monarca dos Habsburgos a ser considerada influenciada pelo Iluminismo em algumas áreas, foi marcado por uma mistura de iluminismo e conservadorismo. O breve reinado de seu filho José II foi marcado por esse conflito, com sua ideologia do Josefinismo enfrentando oposição. José II realizou inúmeras reformas no espírito do Iluminismo, que afetaram, por exemplo, o sistema escolar, os mosteiros e o sistema jurídico. O imperador Leopoldo II, que foi um dos primeiros opositores da pena de morte, teve um governo breve e contencioso, marcado principalmente pelas relações com a França. Da mesma forma, o governo do Imperador Francisco II foi marcado principalmente pelas relações com a França. As ideias do Iluminismo também apareceram na literatura e em obras teatrais. Joseph von Sonnenfels foi um representante importante. Na música, músicos austríacos como Joseph Haydn e Wolfgang Amadeus Mozart foram associados ao Iluminismo.
Itália
Na Itália, os principais centros de difusão do Iluminismo foram Nápoles e Milão: em ambas as cidades os intelectuais assumiram cargos públicos e colaboraram com as administrações dos Bourbon e dos Habsburgos. Em Nápoles, Antonio Genovesi, Ferdinando Galiani e Gaetano Filangieri atuaram sob o tolerante rei Carlos de Bourbon. Contudo, o Iluminismo napolitano, tal como a filosofia de Giambattista Vico, permaneceu quase sempre no campo teórico. Só mais tarde, muitos iluministas animaram a infeliz experiência da República Partenopéia. Em Milão, no entanto, o movimento se esforçou para encontrar soluções concretas para os problemas. O centro das discussões foi a revista Il Caffè (1762–1766), fundada pelos irmãos Pietro e Alessandro Verri (filósofos e escritores famosos, assim como seu irmão Giovanni), que também deram vida à Accademia dei Pugni, fundada em 1761. Centros menores foram Toscana, Vêneto e Piemonte, onde, entre outros, Pompeo Neri trabalhou. De Nápoles, Genovesi influenciou uma geração de intelectuais e estudantes universitários do sul da Itália. Seu livro didático Della diceosina, o sia della Filosofia del Giusto e dell'Onesto (1766) foi uma tentativa controversa de mediar entre a história da filosofia moral, por um lado, e os problemas específicos encontrados pela sociedade comercial do século XVIII, por outro. Continha a maior parte do pensamento político, filosófico e económico de Genovesi, que se tornou um guia para o desenvolvimento económico e social napolitano.
Espanha Bourbon e América Espanhola
Quando Carlos II, o último monarca espanhol dos Habsburgos, morreu, seu sucessor era da Casa Francesa de Bourbon, iniciando um período de influência do Iluminismo Francês na Espanha e no Império Espanhol. No século XVIII, os espanhóis continuaram a expandir seu império nas Américas com as missões espanholas na Califórnia e estabeleceram missões mais para o interior da América do Sul. Sob Carlos III, a coroa começou a implementar sérias mudanças estruturais. A monarquia restringiu o poder da Igreja Católica e estabeleceu um exército permanente na América Espanhola. O comércio mais livre foi promovido pelo comércio livre, no qual as regiões podiam negociar com empresas que navegavam de qualquer outro porto espanhol, em vez do restritivo sistema mercantil. A coroa enviou expedições científicas para afirmar a soberania espanhola sobre territórios que reivindicava, mas não controlava, mas também, mais importante, para descobrir o potencial econômico de seu vasto império. As expedições botânicas buscavam plantas que pudessem ser úteis ao império.
Haiti
A Revolução Haitiana começou em 1791 e terminou em 1804 e mostra como as ideias do Iluminismo "eram parte de fluxos transculturais complexos". As ideias radicais de Paris durante e após a Revolução Francesa foram mobilizadas no Haiti, como por Toussaint Louverture. Toussaint leu a crítica do colonialismo europeu no livro Histoire des deux Indes, de Guillaume Thomas François Raynal e "ficou particularmente impressionado com a previsão de Raynal sobre a vinda de um 'Espártaco Negro'". A revolução combinou as ideias do Iluminismo com as experiências dos escravos no Haiti, dois terços dos quais nasceram em África e podiam "inspirar-se em noções específicas de reino e de governo justo da África Ocidental e Central, e empregar práticas religiosas como o vodu para a formação de comunidades revolucionárias". A revolução também afectou a França e "forçou a Convenção Nacional Francesa a abolir a escravatura em 1794".
A ideia do Iluminismo sempre foi um território contestado. De acordo com Keith Thomas, seus apoiadores "aclamam-no como a fonte de tudo o que é progressivo no mundo moderno. Para eles, ele representa a liberdade de pensamento, a investigação racional, o pensamento crítico, a tolerância religiosa, a liberdade política, a realização científica, a busca da felicidade e a esperança no futuro." Os filósofos românticos argumentaram que a dependência excessiva do Iluminismo em relação à razão foi um erro que ele perpetuou, ignorando os laços da história, do mito, da fé e da tradição que eram necessários para manter a sociedade unida. Ritchie Robertson o retrata como um grande programa intelectual e político, oferecendo uma "ciência" da sociedade modelada nas poderosas leis físicas de Newton. A "ciência social" era vista como um instrumento de aperfeiçoamento humano. Isto exporia a verdade e expandiria a felicidade humana.
Definição
O termo "Iluminismo" em português é o equivalente ao termo francês Lumières, usado pela primeira vez por Jean-Baptiste Dubos em 1733 e já bem estabelecido em 1751. Do ensaio de Kant de 1784 "Beantwortung der Frage: Was ist Aufklärung?" ("Respondendo à pergunta: O que é a Iluminação? "), o termo alemão tornou-se Aufklärung ( aufklären = iluminar; sich aufklären = esclarecer). No entanto, os estudiosos nunca chegaram a um acordo sobre uma definição do termo ou sobre sua extensão cronológica ou geográfica. Termos como les Lumières (francês), illuminism o (italiano), ilustración (espanhol), Aufklärung (alemão) e Enlightenment (inglês) referiam-se a movimentos parcialmente sobrepostos.
Período de tempo
Há pouco consenso sobre o início preciso da Era do Iluminismo, embora vários historiadores e filósofos argumentem que ela foi marcada pela filosofia de Descartes de 1637, Cogito ergo sum ("Penso, logo existo"), que mudou a base epistemológica da autoridade externa para a certeza interna. Na França, muitos citaram a publicação dos Principia Mathematica de Newton (1687), que se baseou no trabalho de cientistas anteriores e formulou as leis do movimento e da gravitação universal. Os historiadores franceses costumam situar o Siècle des Lumières ("Século das Luzes") entre 1715 e 1789: do início do reinado de Luís XV até a Revolução Francesa. A maioria dos estudiosos usa os últimos anos do século, escolhendo frequentemente a Revolução Francesa ou o início das Guerras Napoleônicas (1804) como um ponto conveniente no tempo para datar o fim do Iluminismo.
Estudo moderno
No livro Dialética do Esclarecimento de 1947, os filósofos da Escola de Frankfurt Max Horkheimer e Theodor W. Adorno argumentam: O Iluminismo, entendido no sentido mais amplo como o avanço do pensamento, sempre teve como objetivo libertar os seres humanos do medo e instalá-los como mestres. No entanto, a terra totalmente iluminada irradia sob o signo do desastre triunfante Ampliando o argumento de Horkheimer e Adorno, o historiador intelectual Jason Josephson-Storm argumenta que qualquer ideia do Iluminismo como um período claramente definido, separado do Renascimento anterior e do Romantismo ou Contrailuminismo posterior, constitui um mito. Storm aponta que há periodizações muito diferentes e mutuamente contraditórias do Iluminismo, dependendo da nação, campo de estudo e escola de pensamento; que o termo e a categoria de "Iluminismo" referindo-se à Revolução Científica foram realmente aplicados após o fato histórico ter acontedio; que o Iluminismo não viu um aumento no desencantamento do mundo ou no domínio da visão de mundo mecanicista; e que uma confusão nas primeiras ideias modernas das humanidades e ciências naturais torna difícil circunscrever uma Revolução Científica. Storm defende sua categorização do Iluminismo como "mito" ao observar o papel regulador que as ideias de um período iluminista e de desencanto desempenham na cultura ocidental moderna, de tal forma que a crença na magia, no espiritualismo e até mesmo na religião parece um tanto tabu nas camadas intelectuais.
Em contraste com a abordagem historiográfica intelectual do Iluminismo, que examina as várias correntes ou discursos do pensamento intelectual dentro do contexto europeu durante os séculos XVII e XVIII, a abordagem cultural (ou social) examina as mudanças que ocorreram na sociedade e na cultura europeias. Esta abordagem estuda o processo de mudança de sociabilidades e práticas culturais durante o Iluminismo. Um dos principais elementos da cultura do Iluminismo foi a ascensão da esfera pública, um "reino de comunicação marcado por novas arenas de debate, formas mais abertas e acessíveis de espaço público urbano e sociabilidade, e uma explosão da cultura impressa", no final do século XVII e no século XVIII. Os elementos da esfera pública incluíam o fato de ser igualitária, de discutir o domínio de “interesse comum” e de o argumento ser fundado na razão. Habermas usa o termo "preocupação comum" para descrever aquelas áreas de conhecimento e discussão política/social que antes eram território exclusivo do Estado e das autoridades religiosas, agora abertas ao exame crítico pela esfera pública. Os valores desta esfera pública burguesa incluíam a consideração da razão como suprema, a consideração de tudo como aberto à crítica (a esfera pública é crítica) e a oposição ao segredo de todos os tipos.
Implicações nas artes
Devido ao foco na razão em detrimento da superstição, o Iluminismo cultivou as artes. A ênfase no aprendizado, na arte e na música tornou-se mais difundida, especialmente com o crescimento da classe média. Áreas de estudo como literatura, filosofia, ciência e belas artes exploraram cada vez mais assuntos com os quais o público em geral, além dos profissionais e clientes anteriormente mais segregados, poderia se relacionar. À medida que os músicos passaram a depender mais do apoio público, os concertos públicos se tornaram cada vez mais populares e ajudaram a complementar a renda dos artistas e compositores. Os concertos também os ajudaram a atingir um público maior. Georg Friedrich Händel, por exemplo, exemplificou isso com suas atividades musicais amplamente públicas em Londres. Ele ganhou fama considerável lá com apresentações de suas óperas e oratórios. A música de Joseph Haydn e Wolfgang Amadeus Mozart, com seus estilos clássicos vienenses, é geralmente considerada a mais alinhada com os ideais iluministas.
Os philosophes gastaram muita energia disseminando suas ideias entre homens e mulheres educados em cidades cosmopolitas. Eles usaram muitos locais, alguns deles bem novos. A maioria dos trabalhos sobre o Iluminismo enfatiza os ideais discutidos pelos intelectuais, em vez do estado real da educação na época. Grandes teóricos educacionais, como o inglês John Locke e o suíço Jean Jacques Rousseau, enfatizaram a importância de moldar as mentes dos jovens desde cedo. No final do Iluminismo, houve uma demanda crescente por uma abordagem mais universal à educação, principalmente após a Revolução Americana e a Revolução Francesa. A psicologia educacional predominante a partir da década de 1750, especialmente nos países do norte da Europa, foi o associacionismo: a noção de que a mente associa ou dissocia ideias por meio de rotinas repetidas. Além de ser propício às ideologias iluministas de liberdade, autodeterminação e responsabilidade pessoal, oferecia uma teoria prática da mente que permitia aos professores transformar formas antigas de cultura impressa e manuscrita em ferramentas gráficas eficazes de aprendizagem para as classes média e baixa da sociedade. As crianças eram ensinadas a memorizar fatos por meio de métodos orais e gráficos que se originaram durante o Renascimento.
República das Letras
O termo "República das Letras" foi cunhado em 1664 por Pierre Bayle em seu jornal Nouvelles de la Republique des Lettres. No final do século XVIII, o editor da Histoire de la République des Lettres en France, uma pesquisa literária, descreveu a República das Letras como sendo: Em meio a todos os governos que decidem o destino dos homens; no seio de tantos Estados, a maioria deles despóticos (...) existe um certo reino que domina apenas a mente (...) que honramos com o nome de República, porque preserva uma medida de independência e porque é quase sua essência ser livre. É o reino do talento e do pensamento. A República das Letras foi a soma de uma série de ideais do Iluminismo: um reino igualitário governado pelo conhecimento que poderia agir através de fronteiras políticas e rivalizar com o poder estatal. Era um fórum que apoiava o "exame público livre de questões relativas à religião ou à legislação". Kant considerava a comunicação escrita essencial para a sua concepção da esfera pública; uma vez que todos fizessem parte do "público leitor", então a sociedade poderia ser considerada esclarecida. As pessoas que participaram da República das Letras, como Diderot e Voltaire, são frequentemente conhecidas hoje como figuras importantes do Iluminismo. Na verdade, os homens que escreveram a Encyclopédie de Diderot formaram, sem dúvida, um microcosmo da "república" maior.
Indústria do livro
O aumento do consumo de materiais de leitura de todos os tipos foi uma das principais características do Iluminismo "social". Os desenvolvimentos na Revolução Industrial permitiram que bens de consumo fossem produzidos em maiores quantidades a preços mais baixos, encorajando a disseminação de livros, panfletos, jornais e revistas – "meios de transmissão de ideias e atitudes". O desenvolvimento comercial também aumentou a demanda por informações, juntamente com o aumento populacional e a urbanização. No entanto, a demanda por material de leitura se estendeu para além do âmbito comercial e das classes alta e média, como evidenciado pela bibliothèque bleue. As taxas de alfabetização são difíceis de avaliar, mas em França as taxas duplicaram ao longo do século XVIII. Refletindo a influência decrescente da religião, o número de livros sobre ciência e arte publicados em Paris duplicou entre 1720 e 1780, enquanto o número de livros sobre religião caiu para apenas um décimo do total.
História natural
Um gênero que ganhou grande importância foi o da literatura científica. A história natural, em particular, tornou-se cada vez mais popular entre as classes altas. Obras de história natural incluem Histoire naturelle des insectes, de René-Antoine Ferchault de Réaumur, e La Myologie complète, ou description de tous les muscle du corps humain, de Jacques Gautier d'Agoty (1746). Fora da França do Antigo Regime, a história natural era uma parte importante da medicina e da indústria, abrangendo os campos da botânica, zoologia, meteorologia, hidrologia e mineralogia. Estudantes em universidades e academias do Iluminismo aprendiam essas disciplinas para prepará-los para carreiras tão diversas quanto medicina e teologia. Como demonstrado por Matthew Daniel Eddy, a história natural neste contexto era uma atividade muito da classe média e funcionava como uma zona de comércio fértil para a troca interdisciplinar de diversas ideias científicas.
Revistas científicas e literárias
Os primeiros periódicos científicos e literários foram criados durante o Iluminismo. O primeiro jornal, o parisiense Journal des sçavans, apareceu em 1665. Entretanto, foi somente em 1682 que os periódicos começaram a ser produzidos de forma mais ampla. Francês e latim eram as línguas dominantes de publicação, mas também havia uma demanda constante por material em alemão e neerlandês. Em geral, havia baixa demanda por publicações em inglês no continente, o que se refletiu na falta de interesse da Inglaterra por obras francesas. Idiomas com menor presença no mercado internacional — como dinamarquês, espanhol e português — tiveram mais dificuldade para obter sucesso em periódicos e um idioma mais internacional foi usado em seu lugar. O francês aos poucos assumiu o status do latim como língua franca dos círculos eruditos. Isto, por sua vez, deu precedência à indústria editorial nos Países Baixos, onde a grande maioria destes periódicos em língua francesa foram produzidos.
Enciclopédias e dicionários
Embora a existência de dicionários e enciclopédias tenha registro até os tempos antigos, os textos passaram de palavras definidoras em uma longa lista para discussões muito mais detalhadas dessas palavras em dicionários enciclopédicos do século XVIII. O primeiro dicionário técnico foi elaborado por John Harris e intitulado Lexicon Technicum. O livro de Harris evita entradas teológicas e biográficas e, em vez disso, concentra-se em ciência e tecnologia. Publicado em 1704, o Lexicon Technicum foi o primeiro livro escrito em inglês que adotou uma abordagem metódica para descrever matemática e aritmética comercial, juntamente com ciências físicas e navegação.
Popularização da ciência
Um dos desenvolvimentos mais importantes que a era do Iluminismo trouxe para a disciplina da ciência foi sua popularização. Uma população cada vez mais alfabetizada em busca de conhecimento e educação tanto nas artes quanto nas ciências impulsionou a expansão da cultura impressa e a disseminação do aprendizado científico. A nova população alfabetizada foi precipitada por um grande aumento na disponibilidade de alimentos; isso permitiu que muitas pessoas saíssem da pobreza e, em vez de pagar mais por alimentos, tinham dinheiro para educação. A primeira obra significativa que expressou teoria e conhecimento científico expressamente para leigos, na língua vernácula e com o entretenimento dos leitores em mente, foi Conversas sobre a Pluralidade dos Mundos (1686), de Bernard le Bovier de Fontenelle. Essas obras populares foram escritas em um estilo discursivo, que era apresentado de forma muito mais clara para o leitor do que os artigos, tratados e livros complicados publicados pelas academias e cientistas. A Astronomia de Charles Leadbetter (1727) foi anunciada como "uma obra inteiramente nova" que incluiria "textos curtos e fáceis". A primeira introdução francesa ao newtonianismo e aos Principia foi Eléments de la philosophie de Newton, publicado por Voltaire em 1738. A tradução dos Principia feita por Émilie du Châtelet, publicada após sua morte em 1756, também ajudou a espalhar as teorias de Newton para além das academias científicas e da universidade.


