Português brasileiro
Português brasileiro, também conhecido como português do Brasil, é o termo utilizado para classificar a variante da língua portuguesa falada de forma nativa pelos mais de 213 milhões de brasileiros no país, em 2025, e pelos mais de 4 milhões, que vivem fora do Brasil.
Línguas indígenas americanas ou ameríndias
Antes da chegada dos portugueses, estima-se que cerca de 1 500 línguas diferentes eram faladas no território que veio a ser o Brasil. Essas são agrupadas em famílias, classificadas como pertencentes aos troncos tupi, macro-jê e aruaque. Há famílias, entretanto, que não puderam ser identificadas como relacionadas a nenhum destes troncos, são elas: caribes, panos, macus, ianomâmis, muras, tucanos, catuquinas, chapacuras, nambiquaras e cadiuéu-guaicurus. Evidentemente, o facto de duas sociedades indígenas americanas falarem línguas pertencentes a uma mesma família não faz com que seus membros consigam entender-se mutuamente. Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
O português no Brasil
Com a saída dos holandeses em 1654, o português passou a ser a única "Língua de Estado" do Brasil. No fim do século XVII, os bandeirantes iniciaram a exploração do interior do continente, e descobriram ouro e diamantes. Devido a isso, o número de imigrantes portugueses no Brasil e o número de falantes da Língua Portuguesa no Brasil passaram a aumentar, superando os falantes da língua geral (derivada do tupinambá). Em 17 de agosto de 1758, o Marquês de Pombal instituiu o português como a língua oficial do Brasil, ficando proibido o uso da língua geral. Nessa altura, devido à evolução natural da língua, o português falado no Brasil já tinha características próprias que o diferenciavam do falado em Portugal.
Ainda que o léxico brasileiro seja o mesmo que o do português europeu, existe uma série de regionalismos que podem gerar confusão e desentendimentos entre os falantes das duas variantes. Há ainda as palavras que, apesar de estarem dicionarizadas em ambos os países (Brasil e Portugal), não são utilizadas por um ou por outro, gerando a mesma estranheza quando ouvidas ou lidas por um falante da outra variante.
Tupinismos
São os chamados "brasileirismos" que derivam diretamente da língua tupi ou que por ela foram influenciados, como acontece com alguns sufixos que, segundo alguns autores, funcionam mais como adjetivos do que como sufixos, já que não alteram a constituição morfológica e fonética da palavra a que se ligam. São exemplos destes sufixos o -açu (grande), -guaçu (grande) e -mirim (pequeno) nas palavras arapaçu (pássaro de bico grande), babaçu (palmeira grande), mandiguaçu (peixe grande), abatimirim (arroz miúdo) ou mesa-mirim (mesa pequena). Existem, no entanto, verdadeiros sufixos, como -rana (parecido com) e -oara (valor gentílico) nas palavras bibirana (planta da família das anonáceas), brancarana (mulata clara) ou paroara (natural do Pará) e marajoara (natural da Ilha do Marajó, Pará).
Amerindinismos
Existem influências de outras línguas ameríndias não tupis que se falavam no país à data da chegada dos portugueses e com as quais houve contato. Os índios de língua tupi chamavam de tapuia os índios de fala não tupi, termo este que também foi adotado pelos colonizadores portugueses para se referir àqueles índios.
Africanismos
O tráfico de escravos, especialmente da África para os engenhos brasileiros, trouxe consigo, mormente de povos bantos, toda uma série de termos que em breve seriam acrescentados ao português brasileiro. Duas línguas africanas foram as que tiveram maior influência: o iorubá, proveniente em grande parte da atual Nigéria e que é chamado de nagô em ritos religiosos afro-brasileiros e com influência especialmente na Bahia; e o quimbundo, proveniente da atual Angola e mais rico de vocabulário e de expressão no resto do país.
Dialetalismos portugueses
Há outros brasileirismos aparentes que não passam de formas dialetais portuguesas, oriundas das regiões que forneceram os colonos portugueses que foram antepassados de parte significativa da população do Brasil, como os Açores e as várias províncias portuguesas. O resultado foi prosa em vez de conversa ou salvar por saudar (ou dar a salvação, como ainda se diz em algumas regiões de Portugal).
Neologismos
Há palavras novas (neologismos, que designam novos objetos, invenções, técnicas, etc) que têm uma formação distinta da que se verificou em Portugal. São exemplos ônibus por oposição a autocarro, trem por oposição a comboio, ou bonde por oposição a eléctrico. Outros exemplos são gol (pt golo, do inglês goal), esporte (pt desporto (obs.: desporto se usa no Brasil, mas é, na atualidade, incomum), do inglês sport), xampu (pt champô, do inglês shampoo). A tabela abaixo ilustra outras diferenças lexicais:
Os fonemas usados no português do Brasil são, muitas vezes, diferentes dos usados no português europeu, ou seja, uma mesma palavra tem notação fonética diferente no Brasil da dos outros países lusófonos. Existem vários dialetos dentro do português brasileiro e o europeu, entretanto, dentro de cada padrão, esses dialetos compartilham as mesmas peculiaridades básicas do ponto de vista fonético. O português brasileiro utiliza 34 fonemas, sendo treze vogais, dezenove consoantes e duas semivogais. Alguns autores sugerem que o português do Brasil seguiu as características do português europeu do Centro-Sul. No entanto, dados históricos provam que a grande maioria dos imigrantes portugueses que se instalaram no Brasil durante não só o período colonial mas também no período pós-colonial eram oriundos das regiões Norte/Nordeste do país, o que sugere que o português do Brasil poderia ter uma grande influência dos dialetos setentrionais de Portugal.
A fala popular brasileira apresenta uma relativa unidade, apesar das dimensões continentais do Brasil. A comparação das variedades dialetais do português brasileiro com as do português europeu leva à conclusão de que aquelas representam em conjunto um sincretismo destas, já que quase todos os traços regionais ou do português padrão europeu que não aparecem na língua culta brasileira são encontrados em algum dialeto do Brasil. Há pouca precisão na divisão dialetal brasileira. Alguns dialetos, como o dialeto caipira, já foram estudados, estabelecidos e reconhecidos por linguistas tais como Amadeu Amaral. Contudo, há poucos estudos a respeito da maioria dos demais dialetos, e atualmente aceita-se a classificação proposta pelo filólogo Antenor Nascentes. Em entrevista ao jornal da UNICAMP, o linguista Ataliba Teixeira de Castilho diz que o padrão do português paulista espalhou-se pelo Brasil. "Se você olhar mapas que retratem os movimentos das bandeiras, das entradas e dos tropeiros, verá que os paulistas tomaram várias direções, para Minas e Goiás, para o Mato Grosso, para os estados do sul. Tudo isso integrava a Capitania de São Paulo. Na direção do Vale do Paraíba, eles levaram o português paulista até Macaé, no estado do Rio de Janeiro. Era paulista a língua que se falava no Rio de Janeiro. Isso mudou em 1808, quando a população do Rio era de 14 mil habitantes e D. João VI chegou com sua Corte, cerca de 16 mil portugueses. Não eram portugueses quaisquer. Eram portugueses da Corte. Seu prestígio fez com que imediatamente a língua local fosse alterada.
Imagem: International Phonetic Association · BY-SA · Openverse
Desde 1945, existiam duas normas ortográficas para o português: uma em vigor no Brasil e outra nos restantes países lusófonos. A maior parte das diferenças diz respeito às consoantes "mudas", que haviam sido eliminadas da escrita no Brasil. Por exemplo, as palavras ação e atual, que em Portugal eram grafadas acção e actual, mas ditas como no PB. Com a implementação do Acordo Ortográfico de 1990, aprovado pela Assembleia da República portuguesa e assinado pelo Presidente da República a 21 de julho de 2008, a maioria das consoantes mudas foram também eliminadas da ortografia oficial do português europeu, restando apenas um número pequeno de palavras que admitem ortografia dupla, geralmente quando a consoante é muda no português europeu, mas pronunciada no português brasileiro (por exemplo, em recepção), ou vice-versa (por exemplo, em facto). Até a entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990, em janeiro de 2009, o trema era usado no português brasileiro para assinalar que a letra u nas combinações que, qui, gue e gui, normalmente muda, deve ser pronunciada. Exemplos: sangüíneo (pronuncia-se /sãˈgwinju/) e conseqüência (pronuncia-se /kõseˈkwẽsja/).
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De acordo com as teorias tradicionais, o acento no português é abordado nos seguintes aspectos. A sílaba tônica é a mais forte da palavra. Só existe uma sílaba tônica em cada palavra. A sílaba tônica sempre se encontra em uma destas três sílabas: na última (a palavra é oxítona), na penúltima (paroxítona) ou na antepenúltima (proparoxítona). A sílaba subtônica só existe em palavras derivadas, que são as que provêm de outra palavra. Coincide com a tônica da palavra primitiva, ou seja, a sílaba tônica da palavra primitiva se transforma em subtônica da derivada. Todas as outras sílabas são denominadas de átonas. Já as teorias modernas têm uma visão mais abrangente no que tange à questão do acento. De acordo com a teoria do acento, as palavras são divididas em pés, nos quais há um elemento preponderante, que recebe o nome de cabeça. Por exemplo, a palavra parafuso se divide em dois pés: (pa.ra)(fu.so). Cada pé possui seu cabeça, no caso, o cabeça do primeiro pé é PA e o do segundo, FU. Entretanto, o cabeça do segundo pé possui maior intensidade que o do primeiro, sendo o pico de intensidade da palavra. Assim, em vez da ideia de sílabas tônicas e subtônicas, temos a noção de acento primário (fu) e acento secundário (pa).
Em respostas a perguntas, o português brasileiro, em alguns contextos, pode usar a repetição de um verbo presente na pergunta no lugar do afirmativo "sim".[carece de fontes?] É comum se incluir a forma verbal "não é" (ou sua contração "né") no fim de perguntas, com função de ênfase. Por isso é comum responder a perguntas do tipo dizendo-se simplesmente "É". Isso revela uma tendência no português brasileiro de responder não a uma pergunta literal, mas ao que o interlocutor quis saber pela pergunta. No português brasileiro, é registrado o uso do termo "sim" para afirmar uma preposição ou responder a uma pergunta. É comum no Brasil o hábito de fazer negação dupla com "não" no início e no fim da frase, como em "Não é, não". Em algumas regiões, o primeiro "não" desse par, átono, é pronunciado como num [nũ]. É também comum que se omita o primeiro "não", o que resulta numa ordem de palavras para negação inversa à prevalente em Portugal. Exemplo: "Vou, não".
Imagem: Maria Marta Pereira Scherre · CC0 · Openverse
Muitas palavras, sem perderem o seu significado tradicional, enriqueceram-se com uma ou mais acepções novas no Brasil. Por exemplo, virar também significa transformar-se em e prosa é também utilizado com o sentido de loquaz, conversador ou gabarola.[carece de fontes?]
Imagem: Frederico Banana · BY-SA · Openverse
De acordo com alguns linguistas brasileiros contemporâneos (Bortoni, Kato, Mattos e Silva, Milton M. Azevedo, Perini e, mais recentemente, e com grande impacto, Bagno), o português brasileiro seria uma língua caracterizada pela diglossia. Essa teoria afirma que há uma forma B, que seria a fórmula vernácula, língua materna de todos os brasileiros, e uma forma A (português brasileiro padrão), adquirido através da escolarização. A forma B representa uma forma simplificada da língua (em termos gramaticais, mas não fonéticos) que poderia ter-se desenvolvido do português do século XVI, com influências ameríndias e africanas, enquanto a forma A seria baseada no português europeu do século XIX (e muito parecida com o português europeu padrão, com diferenças pequenas de ortografia e gramática). Mário A. Perini, linguista brasileiro, chega a comparar a profundidade das diferenças entre as formas A e B do português brasileiro com as das diferenças entre o espanhol padrão e o português padrão. No entanto, essa proposta é polêmica e não tem aceitação ampla, nem entre gramáticos, nem entre acadêmicos.


