Primeira Guerra Balcânica
A Primeira Guerra Balcânica, também conhecida como Primeira Guerra dos Bálcãs (português brasileiro) ou Balcãs (português europeu), foi um conflito militar que durou de outubro de 1912 a maio de 1913 e colocou a Liga Balcânica contra o Império Otomano. As forças combinadas dos Estados balcânicos conseguiram superar as forças otomanas, numericamente inferiores e em desvantagem estratégica, conseguindo um rápido sucesso. Como resultado da guerra, quase todos os territórios europeus do Império Otomano foram conquistados e divididos entre os aliados, e um estado independente albanês foi criado, por pressão da Áustria-Hungria e da Itália. Apesar deste sucesso, as nações balcânicas permaneceram insatisfeitos com o resultado da guerra, e as tensões internas que surgiram com a retirada da ameaça otomana, que até então os unira, logo resultou na Segunda Guerra Balcânica.
As tensões entre os Estados balcânicos sobre suas aspirações às províncias da Rumélia ocupadas pelos otomanos, como a Rumélia Oriental, a Trácia e a Macedônia, foram interrompidas pela intervenção das grandes potências nos Bálcãs em meados do século XIX, que visavam garantir a proteção das maiorias cristãs da região e a manutenção do status quo. Em 1867, a Grécia, a Sérvia e Montenegro já haviam assegurado suas independências, confirmadas pelo Tratado de Berlim uma década mais tarde. Mas a questão da viabilidade do domínio otomano renasceria com a Revolução dos Jovens Turcos em julho de 1908, que compeliu o sultão Abdulamide II a restaurar a suspensa Constituição Otomana, e com os significativos desenvolvimentos ocorridos entre 1909 e 1911. As aspirações sérvias sobre o território da Bósnia e Herzegovina foram defraudadas pela Áustria-Hungria, que anexou formalmente a província em outubro de 1908, pelo que os sérvios voltaram suas atenções para o Cosovo, que historicamente consideram sua terra natal, e para uma possível expansão para o sul. Oficiais gregos, que haviam se revoltado em agosto de 1909, haviam assegurado a indicação de um governo progressista liderado por Eleftherios Venizelos que, segundo esperavam, conseguiria resolver a questão da ilha de Creta a seu favor e reverter a derrota na Guerra Greco-Turca de 1897. A Bulgária, que ganhou sua independência do Império Otomano em abril de 1909 e tinha a amizade do Império Russo, também cobiçava territórios otomanos na Trácia e na Macedônia, para garantir sua expansão. Em março de 1910, uma insurreição albanesa eclodiu no Cosovo, e em agosto do mesmo ano o Montenegro seguiu o precedente aberto pela Bulgária e se tornou uma monarquia.
Os quatro aliados não haviam planejado um plano geral de batalha, e não fizeram nenhum esforço para coordenar suas forças. Pelo contrário, a guerra acabaria por ser conduzida por cada Estado individualmente, e assim sendo, ela pode ser separada em quatro frentes de batalha geograficamente definidas. Búlgaros enfrentam a maior parte das forças otomanas, que protegiam as rotas para Constantinopla, especialmente na Trácia e na Macedônia. Sérvios e montenegrinos atuaram em Cosovo, em sanjaco, no norte da Macedônia e na região que viria a formar a Albânia. Os gregos concentraram seus esforços de guerra no sul da Macedônia e na direção de Salônica.
Bulgária
A Bulgária, então conhecida como a "Prússia dos Bálcãs", era militarmente o mais poderoso dos quatro aliados, com um grande, bem-treinado e bem-equipado exército. O exército de 60 mil homens foi expandido para 370 mil combatentes durante a guerra, com uma mobilização total de 600 mil soldados, numa população de 4,3 milhões de habitantes. O suposto comandante das operações era o Czar Ferdinando, enquanto o atual comando estava nas mãos do General Michail Sakov. Os búlgaros também possuíam uma pequena marinha composta por seis navios torpedeiros, que estavam restritos a operações na costa do Mar Negro. As forças búlgaras concentraram seus ataques na Trácia e na Macedônia. Esta última viria a ser dividida entre Sérvia e Grécia, apesar de originalmente estas duas regiões pertencerem ao reino (foram retiradas do reino búlgaro em 1878, no Tratado de Berlim, no qual as potências europeias tentaram impedir o surgimento de um país poderoso nos Bálcãs). A maior força de ataque foi deixada na Trácia, formando três exércitos. O primeiro, sob o comando do general Vasil Kutinchev tinha três divisões de infantaria e foi deixado no sul de Jambol, com vistas a fazer operações ao longo do rio Tundzha. O segundo exército ficou sob o comando do general Nikola Ivanov, com duas divisões de infantaria e uma brigada, foi deixado a oeste do primeiro exército e designado a capturar a poderosa fortaleza de Adrianópolis (atual Edirne). De acordo com os planos, o terceiro exército, sob o comando do general Radko Dimitriev, foi deixado a leste do primeiro, e estava protegido pela divisão de cavalaria que o escondia das divisões turcas. O terceiro exército tinha três divisões de infantaria designadas a cruzar o monte Stranja e a tomar a fortaleza de Lozengrado (Kirk Kilisse). As divisões de número 2 e 7 receberam papéis independentes, operando na Trácia Ocidental e na Macedônia Oriental, respectivamente. Vievo foi um exemplo de vila da qual os turcos foram expulsos sob a eficácia da milícia búlgara.
Sérvia
Apesar de muito menor em números que o exército búlgaro, a força militar da Sérvia também era considerável. A Sérvia convocou aproximadamente 230 mil homens para formar dez divisões de infantaria, duas brigadas independentes, e uma divisão de cavalaria sob o comando do ex-Ministro da Guerra Radomir Putnik. O Alto Comando sérvio, em suas previsões feitas antes do início da guerra, concluiu que o melhor campo para uma batalha decisiva contra o exército otomano seria o planalto de Ovče Polje, próximo a Escópia. Assim sendo, as principais forças formaram três exércitos que avançaram sobre Escópia, enquanto uma brigada independente ajudava os montenegrinos no Sanjaco de Novi Pazar.
Grécia
A Grécia era considerada a mais fraca dos três principais aliados, desde que havia sofrido uma humilhante derrota contra os otomanos na Guerra Greco-Turca de 1897, e não se esperava que contribuísse decisivamente contra o exército turco. O reino grego mostrou-se capaz de juntar apenas 120 mil combatentes para suas forças de guerra. Entretanto, a Grécia possuía uma poderosa marinha, que acabou por se tornar vital para a liga, já que era a única forma de prevenir que reforços turcos chegassem aos Bálcãs transferidos da Ásia. Previamente, o embaixador grego em Sófia declarou, com exagero, durante as negociações que levaram a Grécia a ingressar na Liga: "A Grécia pode prover um exército de 600 mil combatentes para o esforço de guerra. (...) 200 mil homens em terra, e a marinha estará apta a impedir 400 mil homens de desembarcar [...] entre Salônica e Galípoli.
Montenegro
Os montenegrinos tinham uma reputação de experientes lutadores, mas seu exército era pequeno e antiquado. Depois de completar a mobilização na primeira semana de outubro, Montenegro organizou seu exército de 35,6 mil combatentes em quatro divisões. O comandante era supostamente o Rei Nicolau I, mas o comando efetivo estava nas mãos do general Lazorović. O principal foco montenegrino era a captura da importante cidade de Escodra, enquanto operações secundárias eram realizadas em Novi Pazar.
Império Otomano
Em 1912, os otomanos viram-se numa posição de extrema dificuldade. Ainda se encontravam envolvidos numa guerra com os italianos na Líbia, que durou até 15 de Outubro, poucos dias antes do início das hostilidades nas Balcãs. O Império Otomano estava então desprovido de capacidade de reforçar significativamente as suas posições na península balcânica e as relações com os Estados da região tinham-se degradado ao longo do ano. As capacidades militares otomanas também estavam minadas devido à instabilidade causada pela Revolução dos Jovens Turcos e pelo golpe contrarrevolucionário levado a cabo vários meses depois. Um esforço foi feito para reorganizar o exército com a ajuda de uma missão alemã, mas os seus efeitos foram questionáveis. O exército regular (nizam) era bem-equipado e treinado, mas as unidades de reserva (redif) que o complementava era geralmente composto de cidadãos locais não muçulmanos, que tinha pouquíssimas habilidades para lutar.


