Tropas auxiliares romanas
As tropas auxiliares romanas eram compostas por soldados que não tinham a cidadania romana, e formavam o principal corpo permanente do exército romano durante o período conhecido como Principado, juntamente com as legiões, formadas por cidadãos. No século II, as tropas auxiliares continham o mesmo número de efetivos de infantaria que as legiões, e era responsável por quase toda a cavalaria, bem como tropas especializadas de todo o exército romano; neste período as tropas auxiliares chegaram a representar três-quintos das forças terrestres permanentes de Roma; como seus equivalentes legionários, os recrutas auxiliares eram na sua maioria voluntários, e não conscritos.
Em 106 a.C., após a vitória do imperador Trajano sobre Decébalo, rei dos dácios, o império apropriou-se dos territórios deste povo e formou a nova província da Dácia. Em meados do século II, encontravam-se estacionados na recém instituída província 44 regimentos de tropas auxiliares, c. de 10% do total das tropas auxiliares do império. Por outro lado, na Britânia estavam acantonados 60. No fim deste século, entre estas duas províncias reuniam perto de 25% do total dos auxiliares do império, o que demonstra a instabilidade destes territórios. Por outro lado, dentre os contingentes de auxiliares recrutados nessa época, mais de 50% procediam da Dácia e da Britânia. Por esta época havia já cerca de 380 regimentos auxiliares (90 alas e 290 coortes, das quais ao redor de 200 eram coortes de cavalaria). Partindo destes dados, pode ser estabelecido que o número de auxiliares despregados por todo o império ascendia a 220 000 efetivos, ou seja, quase o dobro do que em finais do reinado de Augusto. Desta força, 150 000 eram soldados de infantaria e 75 000 de cavalaria. Estes dados põem em evidência a grande importância que atingiram já os auxiliares nos exércitos do império, pois o número de legionários, considerados como os soldados de elite da hierarquia militar, ascendia a 154 000 soldados de infantaria (28 legiões de 5.500 homens cada uma) e 3.360 soldados de cavalaria, cifra muito inferior ao número de tropas auxiliares.
República Romana (até 30 a.C.)
O núcleo da máquina de guerra da República Romana era o manípulo, unidade de infantaria pesada adaptada a confrontos a curta distância em praticamente qualquer tipo de terreno, adotado provavelmente durante as Guerras Samnitas (343−290 a.C.). A legião, no entanto, tinha um grande número de deficiências, entre elas a falta de uma cavalaria. Por volta de 200 a.C., uma legião de 4200 membros da infantaria contava com uma cavalaria de apenas 300 cavaleiros (apenas 7% da força total). Isto se dava porque a classe de cidadãos que podia pagar por seu próprio cavalo e pelo equipamento necessário - a ordem equestre, ou "cavaleiros", segundo escalão na sociedade romana, depois dos senadores - ainda era pequena. A legião também não contava com forças capazes de atacar à distância, como fundibulários e arqueiros.
Reinado de Augusto (27 a.C.-14 d.C.)
Ao término da Terceira Guerra Civil da República de Roma (30 a.C.), Augusto licenciou a maioria das unidades estrangeiras que compunham as tropas auxiliares. Porém, as mais experientes não apenas receberam a ordem de dissolução, mas se tornariam no núcleo das forças auxiliares durante o reinado da dinastia júlio-claudiana. Durante os primeiros anos do seu reinado, Augusto criou o corpo de tropas auxiliares inspirando-se nas forças latinas que empregava a República Romana antes da Guerra Social. As tropas auxiliares, concebidos como um corpo de tropas não cidadãs paralelo às legiões, tinham uma diferença fundamental com referência aos auxiliares que empregavam os republicanos: à época da república], os corpos auxiliares eram formados por recrutas alistados para uma campanha concreta, e eram dissolvidos uma vez que terminava a campanha na que serviam; sob o reinado de Augusto, este corpo estava totalmente formado por voluntários profissionais que prestavam serviço em unidades permanentes.
Revolta ilíria (6-9 d.C.)
Sempre houve um risco inerente na política da dinastia júlio-claudiana de recrutar os seus contingentes auxiliares entre os mesmos povos das províncias nas quais serviam, pois, se a sua tribo ou grupo étnico de procedência se rebelava contra Roma (ou atacava o império fora das suas fronteiras), as tropas auxiliares poderiam ver-se tentadas a fazer causa comum com eles. Se ocorresse esta circunstância, os romanos ver-se-iam obrigados a enfrentar um inimigo cujos exércitos se comporiam por unidades totalmente equipadas e treinadas por eles mesmos, perdendo assim a sua habitual vantagem tática sobre as tribos rivais. Como exemplo a nível individual temos Armínio, um líder germânico que, após vários anos de servir a Roma como prefeito de um corpo de auxiliares, anos nos quais aprendera como equipar e liderar eficazmente a tropas organizadas, rebelou-se contra o império infligindo-lhe uma grande derrota no floresta de Teutoburgo, onde destroçou três legiões no comando do general Públio Quintílio Varo. Esta derrota marcaria o abandono por parte de Augusto da sua estratégia de conquista dos territórios germanos situados para além do Elba.
De Tibério a Nero (14-68 d.C.)
As tropas auxiliares experimentaram um profundo desenvolvimento durante o reinado do imperador Cláudio (41—54). Foi estabelecido um prazo de serviço mínimo de 25 anos. Quando um soldado auxiliar cumpria o tempo requerido no exército, ele e todos os seus filhos recebiam a cidadania romana. Isto deduz-se do fato de o primeiro militar romano que recebeu um diploma militar fazê-lo durante o reinado de Cláudio. O diploma consistia num retângulo dobrável de cobre no que eram inscritos os registros do serviço do soldado, e servia entre outras coisas para provar a cidadania. Durante o seu reinado, Cláudio decretou que os prefeitos dos regimentos auxiliares deviam ser de classe equestre, excluindo assim os centuriões. O fato de os comandantes das tropas auxiliares serem agora da mesma classe que a maioria dos tribunos militares (tribunos militares e oficiais de alta categoria do estado-maior das legiões, dos quais apenas um, o tribuno laticlávio, era um senador de alta categoria) indica o prestígio que atingira o corpo. Porém, os chefes estrangeiros continuaram liderando grande parte das tropas auxiliares, pelo qual era necessário conferir-lhes a cidadania.
Revolta dos batavos (69-70 d.C.)
Meio século depois da revolta dos ilírios, estouraria na Germânia outro sangrento conflito em que estariam presentes como protagonistas as tropas auxiliares romanas. Os batavos eram uma tribo germânica pertencente ao grupo dos catos que habitava no território situado entre o os rios Reno e Waal, o qual posteriormente passaria a fazer parte da província da Germânia Inferior (atuais Países Baixos). A dificuldade de cultivarem as suas terras, devido à presença de pântanos, fazia que fossem uma tribo pequena: não chegavam aos 35 000 homens. Apesar do seu reduzido número, os batavos eram um povo guerreiro; formado por hábeis ginetes, marinheiros e nadadores, pronto se tornou numa potencial fonte de recrutas. Em troca de uma excepcional isenção de tributos (imposto sobre a terra ao que estavam sujeitos a maioria dos povos estrangeiros), os batavos proporcionavam ao exército imperial a maior parte dos seus recrutas auxiliares. A guarda de elite do imperador Augusto (Germani corpore custodes) era formada integramente por homens procedentes deste povo. O número de tropas auxiliares recrutadas entre os batavos ascendeu a cerca de 5000 homens, o que implica que, sob o reinado da dinastia júlio-claudiana, a metade dos homens batavos em idade militar (16 anos) alistaram-se nos exércitos do império. Com estes dados pode-se dizer que os batavos, que constituíam 0,05% populacional total do império (23), subministravam aos seus exércitos 4% do total das tropas auxiliares, ou seja, 80 vezes o ratio populacional. Eram considerados pelos romanos como os melhores dentre as tropas auxiliares e, durante a época em que serviram a Roma, os batavos aperfeiçoaram uma técnica única pela qual podiam cruzar rios nadando apesar de portarem armadura.
Dinastia Flávia (69-96 d.C.)
A revolta dos batavos seria determinante na mudança da política de despregue de tropas auxiliares seguida pelos imperadores da dinastia Flávia. Durante o reinado da dinastia júlio-claudiana, as tropas auxiliares estacionavam-se nos seus países de origem ou nas províncias fronteiriças, exceto períodos de crise importantes, como durante as Guerras Cântabras, nos quais o máximo de efetivos possíveis era trasladado para o teatro de operações. Porém, a revolta dos batavos pusera em evidência que na época de guerra civil, quando as legiões estavam lutando contra os pretendentes ao trono imperial, era perigoso deixar as províncias sob domínio destes auxiliares. Os imperadores da dinastia Flávia estabeleceram como regra que os auxiliares deviam trasladar-se o mais longe possível das suas províncias de origem a fim de evitar a tentação de se rebelarem. A política de deslocamentos começou com a transferência, em 70, de quatro coortes e uma ala de auxiliares batavos à Britânia. Este traslado, dirigido por Petílio Cereal, governador da ilha, marcou um precedente que seria mantido durante os reinados de Vespasiano, Tito e Domiciano. A efetividade da política de deslocamentos dos imperadores da dinastia Flávia pode-se observar mediante os seguintes dados: no século I nenhum dos regimentos de tropas auxiliares eram estacionados fora da sua província de origem, enquanto no século II, dos treze regimentos recrutados entre as tribos britanas, nenhum se encontrava estacionado na Britânia.
Geral
A tabela seguinte amostra o estabelecimento oficial de efetivos auxiliares em finais do século II. Porém, a verdadeira força dos auxiliares, cujo número variava, era a eficácia dos recrutamentos efetuados por todo o império. * O tribuno militar mandava nas coortes romanas originais. ** O prefeito liderava as coortes milliariae recrutadas entre os tungros e os batavos. NOTA: Há um debate em torno do tamanho das turmas, embora se acredite que eram formadas por 30/32 homens. Trinta soldados era o tamanho de uma turma republicana de cavalaria e de uma coorte de cavalaria de auxiliares da época augusta era de 30 homens. Por outro lado, estão as declarações de Flávio Arriano, que fixa o tamanho de uma ala em 512. Tomando como verazes os escritos de Arriano, uma turma de uma ala constaria de 32 homens.
Recrutamento, categorias e salário
São escassas as evidências encontradas a respeito das categorias e salários dos soldados auxiliares, embora mais numerosas do que as dos seus homólogos legionários. Os dados disponíveis podem ser resumidos na seguinte tabela: * Partindo de que os salários dos oficiais eram equivalentes aos do exército romano tardio. No extremo inferior da pirâmide hierárquica do exército romano encontravam-se os soldados ordinários, os pedes (soldados rasos de uma coorte), os eques (ginetes das coortes de cavalaria) e os grégalos (gregalis; ginetes das alas). Nos tempos imediatamente posteriores à instituição das tropas auxiliares como unidade, os romanos recrutavam a este tipo de regimentos entre os peregrini romanos, os cidadãos de segunda classe que habitavam dentro das fronteiras do império. Quando se iniciou o recrutamento de auxiliares entre tribos nativas, os regimentos eram batizados com o nome do povo de procedência. Posteriormente, quando o regimento se estacionava numa província, obtinha a maior parte dos seus novos recrutas entre os provincianos, em detrimento dos estrangeiros originais. Assim, perderam os auxiliares a sua identidade étnica distintiva. Portanto, o nome das unidades auxiliares perdeu senso e tornou-se numa mera curiosidade, embora alguns dos seus membros pudessem herdar nomes estrangeiros dos seus antepassados veteranos. Apesar de tudo, os diplomas e inscrições que se acharam da época demonstram que algumas forças continuaram recrutando homens nos seus territórios de origem; por exemplo, os auxiliares da Britânia continuaram sendo recrutados entre o povo dos batavos. As principais fontes de recrutamento mantiveram-se nas província de Récia, Panônia, Mésia e Dácia. Na Britânia, foram encontradas evidências de que alguns regimentos contavam com soldados internacionais.
Unidades especiais
Durante o período republicano, as unidades especiais dos corpos auxiliares romanos eram limitadas aos fundeiros baleares, aos arqueiros cretenses e à cavalaria leve númida. Estas unidades continuariam fazendo parte das tropas auxiliares no século II, embora já se teriam acrescentado algumas novas: Os sagitários (sagittarii) formavam o corpo de arqueiros do exército romano (sagitta em latim significa seta). No século II, existiam oito contingentes de ala dos sagitários (alae sagittariorum; arqueiros montados), 18 de coorte dos sagitários coortes sagittariorum; arqueiros a pé) e seis de coortes de cavaleiros sagitários (coortes sagittariorum equitatae; corpo formado por uma força mista de arqueiros a pé e montados). Estas 32 unidades compreendiam em total cerca de 17 600 arqueiros, dos quais a maioria eram de origem síria e somente um regimento, a I Coorte Sagitária Montada de Creta (cohors I Cretum sagitt. eq.), era de origem cretense, povo que tradicionalmente subministrara arqueiros a Roma na época da República. Destes 32 regimentos de sagitários registrados em meados do século II, treze eram de origem síria, sete de origem trácia, cinco procedentes da Ásia Menor, uma de origem cretense e o restante de origem desconhecida.
Unidades irregulares
Evidências foram encontradas que datam do período do Principado romano, que demonstram a existência de uma minoria étnica de unidades compostas por bárbaros e desvinculadas da organização auxiliar ordinária. Em certo modo, este tipo de unidade era uma simples evolução do antigo sistema de clientelas dos tempos da República, que consistia na existência de uma série de regimentos ad hoc subministrados a Roma para as suas campanhas em nome dos reis clientes do Império. Porém, quando finalizavam estas campanhas, alguns destes contingentes de soldados permaneciam ao serviço de Roma mantendo o liderado, vestimenta, equipa e organização que os caracterizavam. Esta classe de unidade era conhecida pelos romanos com o nome de sócios ("aliados") ou federados. Contudo, devido à escassez de evidências, não é sabido muito a respeito desta classe de unidade.
Nomes, títulos e condecorações
A nomenclatura da maioria dos regimentos auxiliares seguia uma configuração padrão: tipo de unidade, seguida pelo número que expressava a ordem em que foram recrutados, seguida pelo nome da tribo ou nação de peregrinos entre a que foram recrutados em genitivo plural; por exemplo, a III Coorte Batava (cohors III Batavorum) ou a I Coorte Bretã (cohors I Brittonum). Alguns regimentos combinavam os nomes de duas tribos de peregrinos, provavelmente resultado da fusão de dois regimentos independentes; por exemplo, a I Ala Panônia e Gaulesa (ala I Pannoniorum Gallorum). Uma minoria de regimentos nomeavam-se em honra de uma pessoa; por exemplo, a ala Sulpícia (provavelmente nomeada assim em honra de um romano pertencente à gente Sulpícia). Este último caso era produzido também nos poucos regimentos que careciam de número de série.


