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Exegese bíblica (teologia)

A exegese bíblica é o estudo e a investigação crítica das escrituras bíblicas que procura discernir e discriminar julgamentos sobre essas escrituras.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 24/06/2026
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Doutrina

Os estudos críticos da Bíblia aplicam o rigor historiográfico a este livro. Uma divisão ainda existe entre a crítica histórica e a crítica literária. A crítica histórica procura localizar o texto na história, procurando esclarecer como quando o texto foi escrito, quem poderia ter sido o autor e que história podemos reconstruir a partir dos questionamentos do texto. A crítica literária pergunta qual era a audiência para a qual o autor escreveu, seus propósitos e o desenvolvimento do texto no tempo. A crítica histórica foi a forma dominante de crítica até o fim do século XX, quando os críticos bíblicos acabaram se interessando mais por questões ligadas ao significado do texto, suas origens e métodos de desenvolvimento, com base na crítica literária tradicional. A distinção entre essas abordagens é, normalmente, entendida como uma diferença entre uma visão diacrônica e uma visão sincrônica dos textos.

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História

O exame filológico da Bíblia remonta da Antiguidade. Estudiosos como Orígenes de Alexandria, Jerônimo, Teodoro de Mopsuéstia, Ibn Ezra, avançaram em estudos textuais, históricos e críticos das Escrituras. No Renascimento e Reforma, houve uma profusão de estudos filológicos das Escrituras, por exemplo, com Erasmo de Roterdã, principalmente para produzir edições impressas e versões traduzidas às línguas vernáculas. Alinhados com o método filológico em voga, reformadores com Lutero, Zuínglio e Calvino abraçaram o método crítico, primando por uma produção teológica fundada em bases literárias, históricas e críticas. Lutero, em seu processo de tradução da Bíblia, discutiu a canonicidade e a diferença entre homologoumena e antilegomena, debate continuado por M. Chemnitz e M. Flacius. Zuínglio, um estudioso da retórica, empregou essas ferramentas para concluir que as palavras da Ceia do Senhor seria uma metonímia, dando um caráter memorialista de sua celebração. Calvino constantemente repreendia, insultava e rejeitava seus competicores exegéticos pela ignorância das artes e ciências mediadas pela literatura grega e latina.

Antigo Testamento (ou Bíblia Hebraica)

A crítica bíblica moderna da Bíblia Hebraica começa no século XVII com filósofos e teólogos (Thomas Hobbes, Benedito Spinoza, Richard Simon e outros) que começaram a se perguntar quais seriam as origens do texto bíblico, especialmente do Pentateuco (os primeiros cinco livros do Antigo Testamento: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). Eles questionaram especificamente quem teria escrito esses livros: de acordo com a tradição, o autor teria sido Moisés, mas esses críticos encontraram contradições e inconsistências no texto que, de acordo com eles, tornavam a autoria mosaica improvável. No século XVIII, Jean Astruc (1684–1766), um médico francês, tentou refutar essas críticas. De acordo com ele, as contradições e inconsistências presentes no texto bíblico eram resultado de adições posteriores ao texto, que teriam se mesclado às escrituras originais de Moisés.

Novo Testamento

A figura mais importante da crítica ao Novo Testamento foi Hermann Samuel Reimarus (1694–1768), que aplicou a ele a metodologia dos estudos textuais do grego e do latim e se convenceu de que muito pouco do que era dito poderia ser aceito como verdade incontroversa. As conclusões de Reimarus apelaram ao racionalismo dos intelectuais do século XVIII, e foram profundamente turbulentas para os crentes contemporâneos. No século XIX trabalhos importantes foram realizados por David Strauss, Ernest Renan, Johannes Weiss, Albert Schweitzer e outros, todos tendo investigado o “Jesus histórico” a partir das narrativas dos evangelhos. Num campo diferente, o trabalho de H. J. Holtzmann foi significativo: ele estabeleceu uma cronologia para a composição dos vários livros do Novo Testamento que formaram a base para a pesquisa futura no assunto, e estabeleceu a hipótese das duas fontes (a hipótese de que os evangelhos de Mateus e Lucas são derivados do evangelho de Marcos e um outro documento hipotético chamado de “Fonte Q ”). Pela primeira metade do século XX uma nova geração de estudiosos, incluindo Karl Barth e Rudolph Bultmann, na Alemanha, Roy Harrisville e outros na América do Norte, decidiram que a busca do Jesus Histórico havia atingido um beco sem saída. Barth e Bultmann aceitaram que pouco poderia ser dito com certeza sobre o Jesus histórico, e concentraram suas atenções na mensagem do Novo Testamento de forma geral. As questões que eles colocaram foram: Qual foi a mensagem principal de Jesus? Como essa mensagem se relaciona ao Judaísmo? Por acaso essa mensagem fala à realidade de hoje?

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Métodos e perspectivas

Crítica textual

A Crítica textual divide-se em Alta Crítica e Baixa Crítica, embora essa última seja frequentemente chamada simplesmente de "crítica textual". A Alta crítica era uma abordagem que tratava de responder a questões tais como: quando e onde um texto particular se originou; como, por quais razões, por quem, para quem e em que circunstâncias foi produzido; que influências se expressam em sua produção; que fontes documentais foram usadas em sua composição; e qual a mensagem que o texto procura passar. Em contraste com a Baixa crítica, o foco da Alta crítica está no estudo dos autores dos textos bíblicos, tempo, lugar em que foi escrito, seu processo de formação editorial, fontes documentais, sua transmissão histórica e o contexto de formação, denominado Sitz im Leben.

Crítica das fontes

A crítica das fontes [en] é a busca de fontes originais que estão por trás de um dado texto bíblico. Na crítica bíblica, essa forma de crítica encontra sua mais nítida manifestação na hipótese documental de Wellhausen que, ao contrário do que dizem alguns autores, está ainda muito viva na interpretação da Bíblia, embora tenha sido reinterpretada à luz das descobertas de Van Setters. A hipótese documentária propõe, a partir de análises rigorosas e sistemáticas, que a Bíblia é um produto da junção de fontes diversas de diferentes épocas e regiões para formar um manuscrito final editado por uma tradição tardia.

Crítica histórica

O consenso historiográfico hoje é de que a Bíblia é um documento como outro qualquer para a construção da história dos hebreus. Portanto, do ponto de vista historiográfico, a leitura da Bíblia envolve a mobilização de instrumentos de crítica que ajudem a ler o documento de forma objetiva – procedimento igualmente aplicado a qualquer tipo de estudo histórico. Como afirmou Herbert Niehr: “Como é o caso em todas as análises historiográficas, a história não pode ser simplesmente encontrada nas fontes. As fontes apenas providenciam o material a ser explorado. Para escrever historiografia ou história de uma religião não é suficiente recontar as fontes.” Grande parte do debate entre maximalistas e minimalistas se situa em torno da existência ou não dos reinados de Davi e Salomão, já que toda a história bíblica anterior à Monarquia é considerada uma construção póstuma. Para autores como Philip Davies e Thomas Thompson (tidos como minimalistas), o mais provável é que esses reinados sequer tenham existido, já que não existem fontes arqueológicas que corroborem a existência de uma grande unidade política na Palestina desse período. No entanto, William G. Dever, e Amihai Mazar (tidos como maximalistas) defendem a historicidade dos reis e seus reinos, embora em patamares muito mais modestos do que aqueles desenhados pelo relato bíblico. De toda a forma, as evidências arqueológicas do período são extremamente contrárias à existência de um Grande Reino hebraico nesse período. De acordo com o arqueólogo Amihai Mazar: “nós podemos descrever a Monarquia Unificada como um Estado num primeiro estágio de desenvolvimento, longe de ser um Estado rico e em larga extensão como retrata o relato bíblico” A ideia da criação dos mitos de Davi e Salomão é explorada detalhadamente por Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman Trabalhos sobre a inexistência dum estado centralizado israelense na época de Davi e Salomão foram realizados por Jessica N. Whisenant, David Ussishkin, Nadav Na’aman , Margreet Steiner , Whitelam e Franken, Killebrew , entre outros.

Crítica redacional

A respeito da crítica redacional, a Bíblia de Jerusalém salienta que a presença de “um problema literário é fato inegável para quem se inclina atentamente sobre os textos. Desde as primeiras páginas do Gênesis encontram-se duplicatas, repetições e discordâncias: dois relatos das origens, que apesar de suas diferenças, contam de maneira dupla a criação do homem e da mulher (1, 1-2,4a e 2,4b-3,24); duas genealogias de Caim-Cainã (4,17 e 5,12-17); dois relatos combinados do Dilúvio (6-8). Na história patriarcal, há duas apresentações da aliança com Abraão (Gênesis 15 e 17); duas expulsões de Agar (16 e 21); três relatos da desventura da mulher de um patriarca em país estrangeiro (12, 10-20; 20; 26,1-11); provavelmente duas histórias combinadas de José e de seus irmãos nos últimos capítulos do Gênesis. Em seguida, há dois relatos da vocação de Moisés (Êxodo 3, 1-4, 17 e 6,2-7,7), dois milagres da água em Meriba (Êxodo 17, 1-7 e Números 20, 1-13); dois textos do Decálogo (Êxodo 20, 1-17 e Deuteronômio 5,6-21); quatro calendários litúrgicos (Êxodo 23, 14-19; 34, 18-23; Levítico 23; Deuteronômio 16,1-16). Poderiam ser citados vários outros exemplos”. As incoerências internas ao texto bíblico são várias vezes apontadas, como em Êxodo 2, 18, “Os textos não concordam quanto ao nome e à pessoa do sogro de Moisés. Aqui temos Ragüel, sacerdote de Madiã; em 3,1; 4,18; 18,1 ele se chama Jetro. Números 10,29 fala de Hobab, filho de Ragüel, o madianita, e Juízes 1,16; 4,11, de Hobab, o quenita”.

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Confusão com críticas à Bíblia

Há entre leigos uma confusão entre o método de crítica histórico-literária da Bíblia com o criticismo (no sentido de atribuir juízo de valor) à Bíblia. A crítica histórico-literária é empregada por exegetas ou teólogos de diferentes persuasão religiosa, desde evangélicos conservadores como Charles Spurgeon ou Bruce Metzger, muçulmanos como Reza Aslan, judeus ortodoxos como Daniel Boyarin, católicos como o papa Bento XVI e mesmo ateus como Bart Ehrman. Entretanto, a Bíblia não é um livro imune a criticismo. A visão de que a Bíblia deve ser aceita como historicamente exata e como um guia confiável para a moralidade historicamene foi questionada por vários céticos, como Voltaire, Bertrand Russell, Isaac Asimov, Thomas Paine, Albert Einstein , Mark Twain, Robert G. Ingersoll, Christopher Hitchens e Richard Dawkins. Além dos problemas sobre a moralidade, a concepção de inerrância ou historicidade em alguns círculos religiosos, subsistem algumas dúvidas de quais livros deveriam ser incluídos na Bíblia (cf. cânon bíblico). Judeus ignoram o Novo Testamento, e tanto judeus quanto cristãos em sua maioria desacreditam na legitimidade dos apócrifos do Novo Testamento.

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