Ambrósio de Milão
Santo Ambrósio de Milão, nascido Aurélio Ambrósio, foi um dos mais eminentes bispos e teólogos da Igreja do século IV, exercendo papel decisivo na defesa da fé católica e na formação espiritual e intelectual da cristandade latina. Alcançou o cargo de prefeito consular da Ligúria e Emília, cuja capital era Mediolano, então centro político do Império Romano do Ocidente. Sua vida tomou rumos inesperados quando, em 374, durante a eleição do novo bispo, foi aclamado pelo povo como pastor da diocese, apesar de ainda ser catecúmeno. Aceitou o chamado, recebeu rapidamente os sacramentos da iniciação cristã e, logo depois, foi ordenado bispo.
Primeiros anos
Ambrósio nasceu numa família romana cristã por volta de 340 e foi criado em Augusta dos Tréveros (moderna Tréveris, Alemanha), a capital da Gália Bélgica. Seu pai também se chamava Aurélio Ambrósio, o prefeito pretoriano da Gália;[falta página] sua mãe é descrita como sendo inteligente e piedosa. Os irmãos de Ambrósio, Sátiro (que foi o tema de sua De excessu fratris Satyri) e Marcelina, são também venerados como santos. Conta a lenda que, quando criança, um enxame de abelhas pousou no seu rosto enquanto dormia no berço e deixou para trás uma gota de mel. Seu pai considerou o fato um sinal de sua futura eloquência, sua "língua de mel". É por conta desta tradição que abelhas e colmeias geralmente aparecem junto ao santo na arte cristã.
Bispo de Mediolano
No fim do século IV, havia uma profunda divisão entre os fieis na diocese de Mediolano, colocando de um lado os católicos (como eram chamados todos os cristãos na época) e os arianos. Em 374, o bispo Auxêncio de Milão, um ariano, morreu e seus partidários rapidamente tentaram eleger um sucessor. Ambrósio correu para a igreja onde a eleição seria realizada com o objetivo de evitar um escândalo, o que era provável. Seu discurso foi interrompido por um grito de "Ambrósio, bispo!", acompanhado logo por toda a assembleia. Ambrósio era conhecido por ser católico, mas era também tolerável para os arianos por conta da forma caridosa com que ele tratava os temas teológicos envolvidos na disputa. A princípio, ele recusou energicamente o cargo, pois ele não estava de forma alguma preparado: ele não era nem batizado e nem estudara teologia. Ao ser nomeado, Ambrósio fugiu para a casa de um colega tentando se esconder. Ao receber um carta do imperador Graciano elogiando a conveniência de Roma nomear indivíduos evidentemente merecedores de funções sagradas, o partido de Ambrósio o entregou. No espaço de uma semana, foi batizado, ordenado e consagrado bispo de Mediolano.
Arianismo
Ambrósio estudou teologia com Simpliciano, um presbítero de Roma. Fazendo bom uso de seu excelente conhecimento do grego, o que era raro no ocidente, estudou o Antigo Testamento e autores gregos como Fílon, Orígenes, Atanásio e Basílio de Cesareia, com quem também passou a se corresponder. Ele aplicou este conhecimento como pregador, concentrando-se especialmente na exegese do Antigo Testamento, e suas habilidades retóricas impressionaram Agostinho de Hipona, ainda um pagão na época, que até então fazia pouco dos pregadores cristãos. No confronto com os arianos, Ambrósio buscou refutar teologicamente suas proposições, que eram contrárias ao Credo de Niceia, a ortodoxia oficial. Os arianos apelaram a muitos líderes e membros do clero em altos postos tanto no ocidente quanto no oriente para se proteger. Embora o imperador ocidental, Graciano, fosse um ortodoxo, o jovem Valentiniano II, que se tornou seu colega, aderiu ao credo ariano. No oriente, Teodósio I era também um niceno, mas havia arianos espalhados por todo o seu império, especialmente no alto clero.
Judaísmo
Um discurso de Ambrósio aos jovens cristãos alertou-os sobre os perigos do casamento com judeus. Porém, sua oposição aos judeus assumiu um caráter muito mais ativo em 388, quando o imperador Teodósio I foi informado de que uma multidão de cristãos havia retaliado a comunidade judaica local destruindo a sinagoga de Callinicum, no Eufrates . A sinagoga provavelmente existia dentro da cidade fortificada para servir os soldados ali estacionados, e Teodósio ordenou que os infratores fossem punidos e que a sinagoga fosse reconstruída às custas do bispo. Ambrósio escreveu ao imperador argumentando contra isso, baseando seu argumento em duas afirmações: primeiro, se o bispo obedecesse à ordem, seria uma traição à sua fé, e segundo, se o bispo se recusasse a obedecer a ordem, ele se tornaria um mártir e criaria um escândalo que envergonharia o imperador.
Relações imperiais
Apesar de descontente com os princípios religiosos de Ambrósio, a corte e o imperador logo pediram a ajuda de Ambrósio. Quando Magno Máximo usurpou o trono na Gália e pensava invadir a Itália, Valentiniano enviou Ambrósio para dissuadi-lo. A embaixada teve sucesso e Magno recuou. Uma segunda embaixada teve menos sucesso, a Itália foi invadida e Milão, tomada. Justina e o filho fugiram, mas Ambrósio permaneceu firme em seu posto de bispo da cidade, mandando derreter a prataria de sua igreja para diminuir o sofrimento da população da cidade. Em 385, Ambrósio, apoiado pela população, recusou-se a atender um pedido de Valentiniano II para entregar a Basílica Pórcia para que fosse utilizada pelas tropas arianas. No ano seguinte, Justina e Valentiniano receberam o bispo ariano Auxêncio de Durostoro (moderna Silistra, na Bulgária), e Ambrósio novamente recebeu ordens de entregar uma igreja em Milão aos arianos. Ambrósio e sua congregação se entrincheiraram na igreja preparando-se para o pior e a ordem acabou sendo revogada.
Morte e legado
Logo depois de tornar-se o imperador incontestável de todo o Império Romano, Teodósio morreu em Mediolano em 395 e, dois anos depois, em 4 de abril de 397, morreu também Ambrósio. Foi sucedido por Simpliciano. O corpo de Ambrósio ainda hoje pode ser visto na Basílica de Santo Ambrósio em Milão, onde ele tem sido continuamente venerado desde então. Estão ali também os corpos, segundo tradição da época de Ambrósio, dos mártires Gervásio e Protásio.
Ambrósio é um dos Doutores da Igreja latinos juntamente com Santo Agostinho, São Jerônimo e São Gregório, o Grande. A intensa consciência episcopal de Ambrósio ampliou a crescente doutrina da Igreja e seu ministério sacerdotal ao mesmo tempo que o prevalente ascetismo da época, em consonância com o treinamento ciceroniano e estoico que recebeu em sua infância, permitiu que Ambrósio promulgasse um alto padrão para a ética cristã. Desta verve nasceram De officiis ministrorum, De viduis, De virginitate e De paenitentia. Ele demonstrava um tipo de flexibilidade litúrgica que tinha em mente que a liturgia era uma ferramenta para servir ao povo em sua adoração a Deus e não deveria tornar-se uma entidade rígida e invariável onde aparecesse. Seu conselho para Agostinho de Hipona sobre este tema era que seguisse o costume litúrgico local. "Quando estou em Roma, jejuo aos sábados; quando estou em Mediolano, não. Siga o costume da igreja onde está.". Desta forma, Ambrósio recusou-se a ser tragado para um falso conflito sobre qual seria a forma litúrgica "correta" quando na verdade nada havia a ser discutido. Este conselho entrou para a língua portuguesa na forma do dito "Em Roma, faça como os romanos".
Mariologia
A poderosa mariologia de Ambrósio influenciou os papas da época como Dâmaso e Sirício e, posteriormente, Leão Magno. Central para Ambrósio era a virgindade de Maria e o papel dela como mãe de Deus: Ambrósio via a virgindade como superior ao matrimônio e via Maria como um modelo de virgindade.
Obras
Em sua exegese, Ambrósio, assim como Hilário, era um alexandrino. No dogma, ele seguia Basílio de Cesareia e outros autores gregos, mas, seja como for, Ambrósio lança uma luz claramente ocidental às suas especulações, o que é particularmente verdadeiro em sua ênfase sobre o pecado e à graça divina assim como no lugar que ele atribuiu para a fé na vida cristã.
Música
Atribui-se tradicionalmente a Ambrósio a composição do chamado canto ambrosiano, conhecido também como "canto antifonal", embora não se saiba na verdade se teve algum papel nisso. São nos hinos ambrosianos que surge pela primeira vez a rima. Além disso, aproveitando-se do impulso inicial dado por Hilário e certo em seu objetivo de combater a salmódia ariana, Ambrósio compôs vários hinos, quatro dos quais sobreviveram juntamente com a música que os acompanha, que não deve ser muito diferente das melodias originais. Cada um deles é composto de oito stanza de quatro linhas num estrito dimetro iâmbico (iambos de 2x2): Ambrósio também é tradicionalmente identificado como sendo o autor do Te Deum, que, diz-se, teria sido composto quando ele batizou Santo Agostinho, seu mais famoso convertido.
Agostinho
Ambrósio era bispo em Mediolano na época da conversão de Agostinho e foi mencionado por este nas "Confissões". Numa passagem das "Confissões" na qual Agostinho pondera o motivo pelo qual ele não conseguia partilhar do fardo de Ambrósio e faz um comentário que foi importante na história da doutrina do celibato: Nesta mesma passagem aparece uma curiosa anedota que viria a ser importante na história da leitura: Esta é uma passagem famosa na discussão acadêmica contemporânea. A prática de ler para si sem vocalizar o texto era menos comum na Antiguidade do que é hoje. Numa cultura que atribuía um alto valor à oratória e às performances públicas e na qual a a produção dos livros era muito trabalhosa, a maioria da população era analfabeta e era na qual os que podiam tinham escravos à disposição para que lhes fossem recitadas as principais obras, textos escritos eram geralmente vistos como "scripts" para recitação e não obras para a meditação silenciosa. Porém, há também evidências de que a leitura silenciosa de fato ocorria na Antiguidade e não era considerada rara.
Os escritos de Ambrósio guardam atualidade na Igreja que a eles em várias épocas tem recorrido. As suas obras são citadas em documentos doutrinais e pontifícios até hoje. Pio XII escora-se em Ambrósio na sua Encíclica Sacra Virginitas, de 25 de março de 1954, citando todas as obras do santo sobre o assunto. Nos documentos do Concílio Vaticano II Ambrósio é reiteradamente citado e invocado como fundamento. Ao menos cinco vezes na Constituição Dogmática Lumen Gentium e ainda na Constituição Gaudium et Spes e na Dei Verbum é mencionado, o Concílio recorre também a ele nos Decretos Ad gentes, Perfectas caritatis e Optatam totius para confirmação da sua doutrina. Também o Papa Paulo VI nele se apoia para escrever a Constituição Apostólica Poenitemini e na Exortação Apostólica O Culto à Virgem Maria, de 24 de março de 1973. Estes e outros documentos eclesiásticos demonstram a sua atualidade dentro do magistério da Igreja Católica.


