Antiquário
Antiquário pode designar tanto um entusiasta, admirador ou comerciante de coisas antigas, quanto um estudioso que se dedica à investigação sobre as antiguidades, isto é, todo tipo de evidência material ligada ao passado. O antiquariato é a modalidade de pesquisa dos estudos históricos desenvolvida pelo antiquário desde a Antiguidade até o final do século XIX, caracterizada por uma abordagem que inclui a erudição, a categorização, a descrição sistemática e o levantamento de fontes. O papel da pesquisa antiquária é avaliado por muitos como fundamental para o desenvolvimento metodológico de disciplinas históricas, particularmente a história e a arqueologia.
Antiquário antigo
Na antiguidade egípcia é possível vislumbrar a existência do antiquário através dos estudos dos artefatos materiais, principalmente pela valorização das construções antigas como relíquias de períodos de grandeza política quanto como fontes de informação sobre o passado dessas civilizações. Desde a XX dinastia (1991–1786 a.C.), escavadores começaram a copiar os estilos artísticos e arquitetônicos de épocas anteriores, que viriam a ser incorporados na construção das tumbas para a realeza. Na XIX dinastia, o príncipe Caemuassete, filho do faraó Ramessés II, se dedicou a estudar os textos associados às construções religiosas abandonadas próximas a capital Mênfis, com o intuito de reparar as estruturas e reviver os cultos ali praticados. No decorrer da XVIII dinastia (1552–1305 a.C.), escribas elaboraram estudos sobre os registros dos antigos festivais, visando reforçar a autenticidade e o poder ritualístico de suas práticas.
Antiquário medieval
Ao longo da Idade Média, a pesquisa antiquária jamais desapareceu. Todavia, alguns historiadores afirmam que a ideia varroniana de antiquitates - enquanto redescoberta de uma civilização por meio de sua descrição sistemática - tenha caído em desuso, de forma que o modelo antigo do antiquário teria sido impraticado desde meados do século VII até o XIV, retornando paulatinamente nas obras de Petrarca e Flavio Biondo, para finalmente ressurgir com plenitude no livro Antiquitatum romanarum corpus absolutissimum, de Johannes Rosinus, levado a público em 1585. Outros afirmam que o antiquariato medieval teria apresentado seus primeiros sinais na arte e na arquitetura de Nicola Pisano, na genealogia de Rodolfo IV da Áustria e no colecionismo de João de Berry, ainda que as antiguidades tenham, em geral, deixado de suscitar interesse científico até aproximadamente o século XIII, sendo preservadas em catedrais, igrejas e abadias por motivos de veneração religiosa. Destaca-se também a influência do antiquariato romano nos governantes Merovíngios da França (476 - 750) e nos reis Lombardos do norte da Itália (568 - 774), que teria imitado a epigrafia e a numismática romanas. Carlos Magno, por exemplo, em seus esforços para justificar sua reivindicação de sucessor dos imperadores romanos, restaurou expressões artísticas típicas da Roma antiga, como as estátuas de bronze e os mosaicos.
Antiquário pré-moderno
No decorrer dos séculos XVI e XVII, percebe-se um desenvolvimento vigoroso do antiquariato europeu, que incorporou os ideais do Renascimento. Nesta perspectiva, o modelo antigo de Varrão foi superado em diversos aspectos, especialmente pela combinação das evidências arqueológicas com as literárias e epigráficas, que incluíam a cronologia, a topografia, a lei e a religião. Outra característica importante do antiquário pré-moderno é seu rigor metodológico, expresso no exame crítico das fontes, na exigência de transcrições exatas dos documentos originais, no uso de bibliografias completas, citações referenciadas, etc. No final do século XVII, os estudos históricos foram questionados em função de sua falta de precisão sobre os fatos do passado. Diversas críticas foram dirigidas à historiografia por parte daquilo que viria a ser conhecido como pirronismo histórico, uma corrente filosófica formada por indivíduos que desacreditaram na ideia de um conhecimento histórico seguro e confiável, tais como François de La Mothe Le Vayer em seu Du peu de certitude qu'il y a dans l'histoire (A pouca certeza que existe na história), publicado em 1686, e Pierre Bayle em sua Critique générale de l'histoire du calvinisme (Crítica geral à história do calvinismo). A refutação desta perspectiva cética ao longo deste século foi feita não tanto por historiadores, mas pelos antiquários, como Ludovico Antonio Muratori em seu Delle forze dell'entendimento umano ossia il pirronismo confutado (Da força do entendimento humano ou o pirronismo refutado), e Jacques Spon, que, em sua Réponse à la critique publiée par M. Guillet (Resposta à crítica publicada por M. Guillet), afirmou a confiabilidade da evidência arqueológica. Deve-se lembrar que, ainda no século XV, a expressão antiquitates poderia significar simplesmente a “história”, como atesta a obra Antiquitates Vicecomitum, escrita por Giorgio Merula em 1486, ou também “ruínas” e “momumentos”, como nas Antiquitates urbis (Cidade antiga) de Pomponio Leto. De qualquer forma, o antiquário enquanto um amante, colecionador e estudante das tradições antigas e seus vestígios foi um dos conceitos mais importantes para o humanismo dos séculos XV e XVI.
Antiquário moderno
O século XVIII é tido por muitos como o apogeu da pesquisa antiquária, organizada institucionalmente em diversas sociedades antiquárias, como as fundadas em Londres em 1707 e Edimburgo em 1780. Este período chegou a ser denominado Era dos Antiquários, devido ao florescimento de publicações e descobertas arqueológicas na área, como as cidades soterradas de Herculano em 1736 e Pompeia em 1738, que incentivaram o aprimoramento científico do antiquariato a ponto de possibilitar uma verdadeira revolução no método histórico. Assim, alguns historiadores avaliam o desenvolvimento deste século como um processo de fusão entre as práticas do antiquário e do historiador, realizada em obras que buscaram associar pesquisa antiquária extensa com a formulação de uma narrativa histórica filosófica. A proposta de utilização das técnicas antiquárias na historiografia, por outro lado, já era feita no século XVI, como atesta a obra De historica facultate disputatio, publicada em 1548 por Francesco Robortello.
Antiquário nos dias de hoje
Atualmente, o termo antiquário é normalmente associado a uma loja que vende artigos antigos, como livros raros, obras de arte, móveis, entre outros. Permanece o entendimento do antiquário como um entusiasta, admirador ou comerciante das antiguidades. Pode-se dizer que a principal característica do antiquariato contemporâneo é a valorização de seu aspecto comercial, entendendo o antiquário enquanto um negociante, e a antiguidade como mercadoria.
A primeira Sociedade Antiquária de que se tem conhecimento foi fundada em 1572, na cidade de Londres, por Robert Cotton, Matthew Parker, William Camden e outros, tendo por objetivo a preservação das antiguidades nacionais britânicas. A sociedade perdurou até 1604, quando foi abolida por Jaime I sob a suspeita de esconder objetivos políticos. Os textos lidos em seus encontros foram preservados e publicados em 1720 pelo antiquário Thomas Hearne, sob o título A Collection of Curious Discourses (Uma Coleção de Discursos Curiosos). Desde 1707, diversos antiquários ingleses começaram a realizar encontros regulares, sendo fundada em 1717 a Sociedade dos Antiquários de Londres. Em 1780, foi fundada a Society of Antiquaries of Scotland (Sociedade dos Antiquários da Escócia), que administra um grande museu de antiguidades nacionais em Edimburgo. Na Irlanda, foi fundada em 1849 a Kilkenny Archaeological Society (Sociedade Arqueológica de Kilkenny), tendo seu nome alterado, vinte anos mais tarde, para Royal Historical and Archaeological Association of Ireland (Associação Histórica e Arqueológica Real da Irlanda) e, em 1890, para Royal Society of Antiquaries of Ireland (Sociedade Real dos Antiquários da Irlanda). Na França, foi fundada em 1814 a La Societe Nationale des Antiquaires de France (A Sociedade Nacional dos Antiquários da França) com a reconstrução da Academic Celtique, que existia desde 1805. A American Antiquarian Society (Sociedade Antiquária Americana) foi fundada em 1812 em Worcester, Estados Unidos. Em 1852 foi fundada, na Alemanha, a Gesamtverein der Deutschen Geschichts -und Altertumsvereine. No início do século XX, uma das sociedades antiquárias mais conhecidas foi La Societe Royale des Antiquaires du Nord (A Sociedade Real dos Antiquários do Norte), sediada em Copenhague. Em 1970 foi fundada, na cidade do Rio de Janeiro, a Associação Brasileira de Antiquários.
Antiquários e historiadores
Os antiquários fazem uso daqueles materiais considerados fontes históricas por historiadores atuais, todavia, não estão submetidos aos pressupostos científicos da história, e frequentemente possuem objetivos distintos com as suas pesquisas. Historicamente, a diferença entre a história política e a erudição antiquária não corresponde a uma distinção entre classes sociais, mas a duas formas distintas e coexistentes de cultura histórica, que podem ser exercidas simultaneamente por um mesmo indivíduo. Alguns afirmam que o interesse antiquário pelo passado pode ser entendido como um desejo em fugir do presente, enquanto para o historiador estas instâncias do tempo não podem ser vistas de forma isolada. Outros afirmam que, embora ambos estejam interessados no estudo do passado, os historiadores normalmente utilizam o termo antiquário em sentido negativo, designando um trabalho cujo foco é limitado e repleto de detalhes, mas que falha em visualizar o contexto histórico mais amplo. Desta forma, uma distinção entre o antiquário e o historiador se faz necessária, mesmo que estes ofícios possam eventualmente confluir na elaboração de um mesmo estudo de caráter histórico, filosófico e antiquário.
Antiquários e arqueólogos
Assim como foi decisivo para a constituição da historiografia moderna, o conhecimento antiquário teve um papel central no desenvolvimento daquilo que, a partir de meados do século XIX, veio a ser conhecido como a disciplina arqueológica. Todavia, ainda que seja possível afirmar que praticamente todos os elementos da arqueologia moderna tenham sido inventados e aplicados pelos antiquários desde a Antiguidade, certas características próprias da constituição disciplinar e científica da arqueologia no âmbito universitário a tornam distinta, porém devedora, do antiquariato. Desde a antiguidade, houve um forte componente religioso orientando a prática antiquária, e ainda durante o século XVII, é possível dizer que o peso da Igreja foi um fator decisivo nas pesquisas antiquárias, considerando o caso europeu. A arqueologia emancipa-se da tradição antiquária no momento em que abandona a perspectiva religiosa e assume, como objeto de pesquisa científica, a própria humanidade, sua identidade, cultura e natureza, ampliando consideravelmente as possibilidades de investigação arqueológica, que passaram a englobar a grande diversidade de tradições e populações do passado. A formação da Arqueologia enquanto disciplina acadêmica, por outro lado, se deu no contexto europeu das ciências positivistas e da sociedade industrial, a partir da conexão entre três abordagens metodológicas específicas: a tipologia, a estratigrafia e a tecnologia. As escavações estratigráficas, por exemplo, possibilitaram ao arqueólogo a datação relativa dos episódios em cronologias mais precisas, enquanto os estudos tecnológicos contribuíram para a reconstrução dos processos de fabricação e uso dos artefatos antigos e dos grandes monumentos. Esta divisão metodológica tripartite é o que, ainda hoje, unifica a arqueologia dentro de sua diversidade global e mantém sua distinção do antiquariato.
As caricaturas de Thomas Rowlandson
Thomas Rowlandson foi um pintor e caricaturista inglês da era georgiana, conhecido pelo teor satírico, e frequentemente erótico, de suas caricaturas. Os desenhos de Rowlandson criaram imagens cômicas de diversos tipos sociais comuns na Inglaterra, como o antiquário, a garçonete, a solteirona, entre outros. Pouco se sabe sobre a vida do artista, que era bastante reservado em relação ao seu passado. Considera-se que a arte de Rowlandson elabora uma rica leitura da vida urbana inglesa na segunda metade do século XVIII e na primeira metade do XIX, assim como fizeram outros artistas do período, como Paul Sandby. Era comum à época de Rowlandson a satirização dos antiquários por sua suposta tendência em focar demasiadamente nos pequenos detalhes dos objetos, sem dar devida atenção ao contexto geral do qual aqueles fazem parte, como no antiquário representado na gravura ao lado. Outras caricaturas do artista seguem uma lógica semelhante, como Death and the Antiquaries (A Morte e os Antiquários), publicada em 1816, que ilustra um grupo de antiquários olhando com atenção para um cadáver exumado, não percebendo a figura da própria morte que mirava sua lança para um deles. Esta última faz parte de uma série de gravuras elaboradas por Rowlandson sobre o famoso tema da Dança da morte, tendo como objetivo a elaboração de um retrato das maneiras, dos costumes e do caráter da Inglaterra.
O Antiquário de Walter Scott
O Antiquário (The Antiquary) é um romance histórico do escritor escocês Walter Scott, publicado em 1816. O livro é o terceiro de uma trilogia de ficção que visa ilustrar os costumes da Escócia em três diferentes períodos da história. O romance O Antiquário se refere à última década do século XVIII, enquanto Waverley, publicado em 1814, trata do período de meados do mesmo século, e Guy Mannering, publicado em 1815, do período da juventude do autor (as décadas de 1770 e 1780). A obra é protagonizada pelo personagem Jonathan Oldbuck, um antiquário, historiador, arqueólogo e colecionador retratado frequentemente de forma cômica. A inspiração de Scott para a construção do personagem veio de pessoas conhecidas por ele (como George Constable, velho amigo de seu pai) e inclusive de si próprio, tendo sido um antiquário desde a infância. Jonathan Oldbuck descende da antiga família Oldenbuck (old book, livro velho em português), e não é o único antiquário do romance, como atesta o seu companheiro Sir Arthur Wardour.
A segunda Consideração Intempestiva de Nietzsche
O filósofo alemão Friedrich Nietzsche dirigiu severas críticas à historiografia de seu tempo na segunda de suas Considerações Intempestivas (Unzeitgemässe Betrachtungen), intitulada "Da utilidade e desvantagem da história para a vida" (Vom Nutzen und Nachteil der Historie für das Leben), publicada em 1874, durante o período em que atuava como professor na Universidade de Basileia, na Suíça. As considerações do filósofo se referem especificamente ao historicismo alemão, comumente associado aos historiadores Leopold von Ranke, Georg Gottfried Gervinus, Johann Gustav Droysen, Ernst Bernheim, Theodor Mommsen, entre outros. Nietzsche argumenta que a historiografia na Alemanha atingiu proporções tão grandes que acabou se desviando do seu objetivo primordial, a saber, o de ser útil à vida e à ação humana transformadora. Por ter-se hipertrofiado, o conhecimento histórico perdeu o caráter instrutivo que desfrutava outrora e se transformou numa força repressora e inibidora da criatividade. Para solucionar o problema, Nietzsche defende a necessidade de um equilíbrio entre as sensibilidades histórica e a-histórica, o que tornaria o indivíduo apto a avaliar não só os momentos em que a história é importante, mas também aqueles em que é imprescindível esquecê-la. Para representar a relação entre tais sensibilidades, o autor utiliza a oposição metafórica entre memória e esquecimento:
As Histórias de Fantasma de um Antiquário de M. R. James
Ghost Stories of an Antiquary (Histórias de Fantasma de um Antiquário) é um livro de ficção do escritor, medievalista e antiquário inglês Montague Rhodes James, publicado em 1904. O livro inaugura uma metodologia para a construção de histórias de fantasmas, as chamadas "regras de James", que influenciaram fortemente outros escritores do gênero de terror, como H. P. Lovecraft. Em 1911, o livro recebeu uma continuação, intitulada More Ghost Stories of an Antiquary (Mais Histórias de Fantasma de um Antiquário). O protagonismo da figura do antiquário nestes livros reflete interesses pessoais de James no antiquariato. A temática antiquária das histórias de fantasma do escritor ilustrava geralmente um acadêmico como protagonista, que se via confrontado por males antigos em suas investigações, como bem exemplifica o conto An Episode in Cathedral History (Um Episódio em História Eclesiástica), no qual um antiquário acidentalmente liberta uma entidade de um tumba selada dentro da Catedral de Southminster. Frequentemente, os protagonistas encontram-se em catedrais amaldiçoadas no interior da Inglaterra, ou em cemitérios escandinavos desabitados.


