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Luta de classes

Luta de classes, ou lutas de classes, no plural, refere-se a um fenômeno social de tensão ou antagonismo que existe entre pessoas ou grupos de diferentes classes sociais devido aos competitivos interesses socioeconômicos e desejos dessas pessoas diante da lógica do modo de produção capitalista, dando forma a um conflito que se expressa nos campos econômico, ideológico e político que é a norma na história humana. A visão de que a luta de classes fornece a alavanca para mudanças sociais radicais para a maioria é fundamental nos trabalhos de Karl Marx e do anarquista Mikhail Bakunin.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 27/06/2026
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Origens

Segundo pensadores como David Ricardo, Pierre-Joseph Proudhon, Karl Marx e Mikhail Bakunin, a luta de classes seria a força motriz por trás das grandes revoluções na história, fornecendo a alavanca para radicais mudanças sociais. Esse conflito teria começado com a criação da propriedade privada dos meios de produção. A partir daí, a sociedade passou a ser dividida entre proprietários (burguesia) e trabalhadores (proletariado), ou seja, possuidores dos meios de produção e possuidores unicamente de sua força de trabalho. Na sociedade capitalista, a burguesia retêm a mercadoria produzida pelo proletariado, e o produtor dessa mercadoria recebe um salário que é pago de acordo com a qualificação profissional dele. Outra característica importante do capitalismo é o conceito criado por Karl Marx da mais-valia. A mais-valia consiste basicamente dessa porcentagem a mais que os capitalistas retiram da classe do proletariado. O acréscimo dessa porcentagem pode ser atingida, por exemplo, aumentando o tempo de trabalho dos operários e mantendo o salário. A luta de classes, segundo Karl Marx, só acabará com o fim do capitalismo e com o fim das classes sociais. O socialismo, que seria como uma fase de transição do capitalismo para o comunismo, foi implementado em diversos países no século XX, a maioria porém reverteu novamente para o capitalismo ou para um sistema econômico misto. A proposta mais radical é abolição do Estado e sua reorganização descentralizada em moldes federativos anarquistas. Embora essa última seja criticada por criar "microestados" sem um poder central colocando o fim do poder estatal como uma utopia.[carece de fontes?]

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Uso

No passado, o termo "luta de classes" era usado principalmente por socialistas, que definem uma classe por sua relação com os meios de produção - como fábricas, terras e máquinas. Deste ponto de vista, o controle social da produção e do trabalho é uma competição entre as classes, e a divisão desses recursos envolve necessariamente conflitos e causa danos. Pode envolver confrontos em pequena escala, se intensificar em confrontos maciços e, em alguns casos, levar à derrota geral de uma das classes concorrentes. No entanto, em tempos mais contemporâneos, busca-se uma nova definição entre as sociedades capitalistas nos Estados Unidos e outros países ocidentalizados. O anarquista Mikhail Bakunin argumentou que a luta de classes da classe trabalhadora, camponesa e pobre teve o potencial de levar a uma revolução social envolvendo a derrubada das elites governantes e a criação do socialismo libertário. Isso era apenas um potencial, e nem sempre a luta de classes era, argumentou ele, o fator único ou decisivo na sociedade, mas era central. Em contraste, os marxistas argumentam que o conflito de classes sempre desempenha o papel decisivo e fundamental na história dos sistemas hierárquicos baseados em classes, como o capitalismo e o feudalismo. Os marxistas referem-se a suas manifestações abertas como guerra de classes, uma luta cuja resolução em favor da classe trabalhadora é vista por eles como inevitável sob o capitalismo plutocrático.

Sociedades pré-capitalistas

Onde as sociedades são socialmente divididas com base em status, riqueza ou controle social da produção e distribuição, as estruturas das classes surgem e, portanto, são covalentes com a própria civilização. Está bem documentado desde pelo menos a Antiguidade Clássica europeia (Conflito das Ordens, Espártaco, etc.) e as várias revoltas populares na Europa medieval tardia e em outros lugares. Uma das primeiras análises desses conflitos encontra-se no livro A Guerra Camponesa Alemã de Friedrich Engels. Uma das primeiras análises do desenvolvimento de classes como fator de conflitos entre classes emergentes está disponível em Mutualismo: Um Fator de Evolução de Piotr Kropotkin. Neste trabalho, Kropotkin analisa a partilha de bens após a morte em sociedades pré-classe ou caçadora-coletora, e como a herança produziu as divisões e os conflitos iniciais de classe.

Século XXI nos Estados Unidos

O bilionário e amigo de Warren Buffett, George Soros aborda o uso pejorativo do termo pelo direito conservador afirmando: "Falando como a pessoa que seria mais prejudicada por isso, acho que meus colegas gestores de fundos de cobertura convocam essa guerra de classe porque eles não gostariam de pagar mais impostos". Bill Moyers, por exemplo, pronunciou um discurso no Brennan Center for Justice em Dezembro de 2013, intitulado "The Great American Class War", referente à luta atual entre democracia e plutocracia nos EUA. Chris Hedges escreveu uma coluna para o site Truthdig chamada "vamos ganhar esta guerra de classes que começou", citando o single da cantora Pink, "Get the Party Started".

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Sociedades capitalistas

O exemplo típico de luta de classes descrito é o conflito dentro do capitalismo. Este conflito de classe é visto principalmente entre a burguesia e o proletariado, e assume a forma de desentendimento sobre horas de trabalho, valor dos salários, divisão dos lucros, custo dos bens de consumo, cultura no trabalho, controle do parlamento ou burocracia e desigualdade econômica. A implementação de programas governamentais que podem parecer puramente humanitários, como a prevenção de acidentes de trabalho, pode realmente ser uma forma de conflito de classe. No conflito de classes dos EUA, muitas vezes é observado em conflitos capital-trabalho. Já em 1933, o representante Edward Hamilton da ALPA, (Air Line Pilots Association, International), usou o termo "guerra de classes" para descrever a oposição da administração aérea nas audiências do National Labor Board (Conselho Nacional do Trabalho) em Outubro daquele ano. Além dessas formas cotidianas de conflito de classe, durante períodos de crise, o conflito de classe revolucionário assume uma natureza violenta e envolve repressão, assalto, restrição de liberdades civis e violência assassina, como assassinatos ou esquadrões da morte.

Thomas Jefferson, Estados Unidos

Embora Thomas Jefferson (1743-1826) tenha presidido os Estados Unidos de 1801 a 1809 e, seja considerado um dos Pais Fundadores, ele morreu com grandes dívidas. Quanto à interação entre as classes sociais, ele escreveu:

Warren Buffett, Estados Unidos

O investidor, bilionário e filantropo Warren Buffett, uma das 10 pessoas mais ricas do mundo, expressou em 2005, e novamente em 2006, sua visão de que sua classe (a "classe rica") está travando uma guerra de classes contra o restante da sociedade. Em 2005, Buffet disse à CNN: "É uma guerra de classes, minha classe está ganhando, mas ela não deveria estar.". Numa entrevista concedida em Novembro de 2006 ao The New York Times, Buffett afirmou que "[aqui] é a guerra de classes, tudo certo, mas é a minha classe, a classe rica, que está fazendo esta guerra e estamos ganhando." Mais tarde, Warren doou de metade de sua fortuna a causas de caridade através de um programa desenvolvido por ele e o magnata dos softwares Bill Gates. Em 2011, Buffett rogou aos legisladores que "...parasem de mimar os super ricos."

Noam Chomsky

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político americano criticou a luta de classes nos Estados Unidos:

Max Weber, Alemanha

Max Weber (1864-1920) concorda com as ideias fundamentais de Karl Marx sobre a economia provocar conflitos de classe, mas afirma que o conflito de classe também pode resultar de prestígio e poder. Weber argumenta que as classes provêm dos diferentes locais de propriedade. Diferentes locais podem afetar em grande parte a classe de alguém por sua educação, e as pessoas associadas. Também afirma que o prestígio resulta em diferentes agrupamentos de status. Esse prestígio é baseado no status social de seus pais. Prestígio é um valor atribuído que, muitas vezes, não pode ser alterado. Weber afirma que as diferenças de poder levaram à criação dos partidos políticos. Weber discorda de Marx sobre a formação das classes. Enquanto Marx acredita que os grupos são semelhantes devido ao seu status econômico, Weber argumenta que as classes são em grande parte formadas pelo status social. Weber não acredita que as comunidades são formadas por uma posição econômica, mas por um prestígio social semelhante. Weber reconhece que há uma relação entre status social, prestígio social e classes.

Primavera árabe

Numerosos fatores culminaram com o que se conhece como a Primavera Árabe. A agenda por trás do conflito civil e a derrubada final dos governos autoritários em todo o Oriente Médio incluíram questões como ditadura ou monarquia absoluta, violações dos direitos humanos, corrupção governamental (demonstrada pelos telegramas diplomáticos vazados pelo Wikileaks), declínio econômico, desemprego, extrema pobreza e uma série de fatores estruturais demográficos, como uma grande porcentagem de jovens educados mas insatisfeitos dentro da população. Além disso, alguns, como o filósofo esloveno Slavoj Žižek atribuem os protestos eleitorais no Irã em 2009 como uma das razões por trás da Primavera Árabe. Os indutores das revoltas nos países do norte da África e do Golfo Pérsico têm sido a concentração da riqueza nas mãos dos autocratas, no poder há décadas, transparência insuficiente de sua redistribuição, corrupção e, especialmente, a recusa dos jovens em aceitar o status quo. Uma vez as ameaças à segurança alimentar afetaram todo o mundo, os preços aproximaram-se dos níveis da crise de alimentos de 2007-2008. A Anistia Internacional destacou o vazamento dos telegramas diplomáticos dos EUA, pelo Wikileaks, como o catalisador das revoltas.

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Socialismo

Perspectiva marxista

Karl Marx (1818-1883) foi um filósofo, nascido na Alemanha que viveu a maior parte de sua vida adulta em Londres, Inglaterra. No Manifesto Comunista, Marx argumentou que uma classe é formada quando seus membros conseguem a consciência de classe e a solidariedade. Isso ocorre amplamente quando os membros de uma classe se tornam conscientes de sua exploração e do conflito com outra classe. Uma classe então realizará seus interesses compartilhados numa identidade comum. De acordo com Marx, uma classe irá então agir contra aqueles que a estão explorando as classes mais baixas. O que Marx ressalta é que os membros de cada uma das duas classes principais têm interesses em comum. Estas classes, ou interesses coletivos, estão em conflito com os da outra classe como um todo. Isso, por sua vez, leva a conflitos entre indivíduos de diferentes classes.

União Soviética e sociedades similares

Uma variedade de pensadores predominantemente trotskistas e anarquistas argumentam que o conflito de classes existia em sociedades de estilo soviético. Seus argumentos descrevem como uma classe o estrato burocrático formado pelo partido político dominante (conhecido como Nomenklatura na União Soviética) - às vezes denominado uma "nova classe" - que controla e guia os meios de produção. Esta classe dominante é vista como sendo contrária ao restante da sociedade, geralmente considerado o proletariado. Este tipo de sistema é referido por eles como socialismo de estado, capitalismo de estado, coletivismo burocrático ou sociedades de "novas classes". (Cliff; Ðilas 1957) O marxismo era um poder ideológico tão predominante no que se tornou a União Soviética, uma vez que um grupo marxista conhecido como Partido Operário Social-Democrata Russo se formou no país, antes de 1917. Este partido logo se dividiu em duas facções principais; os bolcheviques, liderados por Vladimir Lenin, e os mencheviques, liderados por Julius Martov.

Perspectivas não marxistas

Comentaristas sociais, historiadores e teóricos socialistas comentaram sobre a luta de classes algum tempo antes de Marx, bem como a conexão entre a luta de classes, propriedade e lei: Augustin Thierry, François Guizot, François Mignet e Adolphe Thiers. Os fisiocratas, David Ricardo, e depois de Marx, Henry George notou o distribuição inelástica da terra e argumentou que isso criou certos privilégios (locação) para os proprietários de terras. De acordo com o historiador Arnold Toynbee, a estratificação ao longo das linhas da classe aparece apenas dentro das civilizações e, além disso, só aparece durante o processo de declínio da civilização enquanto não caracteriza a fase de crescimento de uma civilização.

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Raça vs. classe

De acordo com Michel Foucault, no século XIX, a noção essencialista de "raça" foi incorporada por racistas, biólogos e eugenistas, que lhe deram o senso moderno de "raça biológica" que foi então integrada ao "racismo estatal". Por outro lado, Foucault afirma que, quando os marxistas desenvolveram o conceito de "luta de classes", eles foram parcialmente inspirados pelas noções antigas e não biológicas da "raça" e da "luta racial". Em uma carta a Friedrich Engels em 1882, Karl Marx escreveu: "Você sabe muito bem onde encontramos a nossa ideia de luta de classes; descobrimos isso no trabalho dos historiadores franceses que falaram sobre a luta racial.". Essa citação aparece na página 93, da obra "Em defesa da Sociedade", escrita por Michel Foucault, 4ª edição, traduzida e publicada no ano de 2005, pela editora Martins Fontes. O autor, por sua vez, corrige as informações em nota, afirmando: "Deveria se tratar, na realidade, da carta de K. Marx a J. Weydemeyer de 5 de março de 1852, na qual Marx escreve notadamente: "Enfim, se eu fosse tu, faria os senhores democratas em geral notarem que melhor fariam se eles próprios se familiarizassem com a literatura burguesa antes de se permitirem ladrar contra o que é o seu contrário. Esses senhores deveriam, por exemplo, estudar as obras históricas de Thierry, Guizot, John Wade, etc., e adquirir algumas luzes sobre a história das classes no passado'" (Karl MarxFriedrich Engels Gesamtausgabe, Dritte Abteilung, Briefwechsel, Bedim, Diez, t. 5,1987, p. 75; trad. fr.: K. Marx & F. Engels, Correspondance, Paris, Editions Sociales, 1959, t III, p, 79). Cf. também a carta de Marx a Engels de 27 de julho de 1854, na qual Thierry é definido como "'o pai da luta das classes' na historiografia francesa" (Gesamtausgabe, t. 7, 1989, pp, 129-32, citação p. 130; trad. fr.: in Correspondance, t. IV, 1975, pp. 148-52. No manuscrito M. Foucault escreve: "Em 1882 ainda, Marx dizia a Engels: a história do projeto e da politica revolucionários nao é dissociável dessa contrahistória das raças e da importância que ela teve no Ocidente nas lutas políticas" (citado manifestamente de memória)"

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Cronologia

Imagem: luizcarioca · BY-NC-SA · Openverse

Os conflitos com de fundo basicamente nacionalista não estão incluídos.

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Críticas

O conceito de luta de classes foi criticado por dividir artificialmente a sociedade em dois campos hostis, além de defender o ódio e a violência de classe. Esta é a censura tradicionalmente abordada pela direita conservadora ou liberal. Os conservadores geralmente defendem o conceito de "colaboração de classes" que, de acordo com os defensores do conceito de luta de classes, é apenas "a exploração de uma classe por outra". Pitirim Sorokin discorda da teoria marxista, que responsabiliza a luta de classes como determinante dos rumos da história humana, afirmando que: "a cooperação entre as classes sociais, é um fenômeno ainda mais universal do que o antagonismo entre elas." A Doutrina Social da Igreja também condena a luta de classes. Em sua famosa encíclica Rerum Novarum, o Papa Leão XIII reconheceu a existência de duas classes: Mas ele recusa a ideia de "luta" entre as duas. No entanto, as conciliações do conceito de luta de classes e ideais cristãos foram tentadas, particularmente através da teologia da libertação, desenvolvida nos anos 1960 e 70 na América Latina. O Papa João Paulo II, no entanto, defendeu a manutenção da doutrina social oficial da Igreja, declarando, por exemplo, em 2002, sobre a ocupação da terra no Brasil: "para alcançar a justiça social, é necessário tornar-se além da simples aplicação de esquemas ideológicos decorrentes da luta de classes, por exemplo, a ocupação da terra, que já condenei durante minha jornada pastoral de 1991.". A doutrina social da Igreja é, portanto, opôs à luta de classes a ideia de uma "associação de classes": "o trabalho de um e o capital do outro devem ser associados um ao outro, uma vez que um não pode fazer nada sem a ajuda do outro" diz a encíclica Quadragesimo anno (§58) publicada em 1931 pelo Papa Pio XI. A aplicação desta ideia pode ser encontrada na promoção do corporativismo cristão ou da associação capital-trabalho defendida pelo gaullismo.

Críticas sociológicas

Outro grande eixo de crítica do conceito de luta de classes reside na validade da definição das próprias classes sociais. O estudo das populações está cada vez mais refinado em resposta à crescente diversificação de situações e comportamentos socioeconômicos (noção de segmentação da população). Alguns críticos questionaram, em particular, a homogeneidade de interesses e comportamentos existentes numa mesma classe social. Para esses críticos, a noção de luta de classes é "simplista" e, a divisão da sociedade entre trabalhadores e capitalistas não corresponde à realidade. Neste, as pessoas com as mesmas funções estão em competição e, portanto, têm alguns interesses conflitantes. Assim, observamos tensões protecionistas, que visam proteger empresas locais e, portanto, trabalhadores contra outros trabalhadores, chefes contra outros chefes; tensões durante greves entre grevistas e não-grevistas; tensões entre aqueles que estão integrados no sistema e aqueles que estão marginalizados (teoria insider-outsider). Segundo Pitirim Sorokin, "qualquer grupo social organizado é sempre um corpo social estratificado. Não existe qualquer grupo social permanente que seja 'plano' e no qual todos os membros são iguais."

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Fontes consultadas

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