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Materialismo

Materialismo é um termo abrangente e polissêmico na história da filosofia e das ciências, costuma significar uma ênfase na materialidade como base para a explicação do mundo e dos problemas filosóficos relativos ao conhecimento, à ética, à política e demais campos. O materialismo é considerado uma tradição marginal, esporádica e frequentemente vinculada a ideias heréticas na história. Parte da falta de definição do termo é decorrente de sua origem polemista, usado como acusação e forma de descredito de ideias alheias. Não obstante, passa a ganhar um sentido mais positivo ao longo de século XVIII, notadamente pelo filósofo iluminista radical La Mettrie, que primeiro se descreveu como materialista. Retrospectivamente, correntes da filosofia antiga são identificados como materialistas, especialmente o Atomismo.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 27/06/2026
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Precedentes na Antiguidade

Ainda que o termo 'materialismo' tenha sido inventado no século XVII, sua elaboração remete à uma história precedente que permeia a própria origem da filosofia e as diversas correntes da filosofia antiga, que terminam sendo retrospectivamente classificadas como materialistas. Alguns elementos fundamentais para a futura emergência da noção de materialismo são talhados no curso da antiguidade - o próprio termo "matéria" foi inventado por Aristóteles no século IV a. c., a partir de hyle, em grego antigo, que seria mais tarde traduzido para o latim como "materia" ou "materies".

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No período medieval

A presença de um pensamento que possa ser reconhecido como materialista durante o período da filosofia medieval torna-se escassa segundo a historiografia. As genealogias predominantes do materialismo costumam "saltar" o medievo, afirmando, de forma mais ou menos explícita, a perda de qualquer continuidade com as correntes da antiguidade, especialmente o atomismo, retomado apenas no renascimento com o reestabelecimento do poema De rerum natura por Poggio Bracciolini, entre outros tradutores. Para Olivier Bloch, os sistemas materialistas são então "desprezados, ignorados ou refutados", não obstante, o mesmo aponta um contato indireto com representações atomistas da matéria, e debates em torno de sua estrutura, como também em torno da imortalidade e imaterialidade da alma, que surgem a partir dos textos de Aristóteles e de seus comentadores, especialmente Alexandre de Afrodísias, cuja negação da imortalidade da alma terá prolongadas repercussões na idade média tardia. Alguns embates com a ortodoxia teológica, em temas de interesse materialista, como a eternidade do mundo e a mortalidade da alma individual, se davam a partir do chamado averroísmo latino, no século XIII.

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Atomistas medievais

Apesar do contato escasso com as representações atomistas, e do antagonismo generalizado por parte de figuras intelectuais e eclesiásticas do período, alguns autores, cristãos, muçulmanos e judeus, podem ser listados como simpáticos ou mesmo proponentes de concepções atomistas. Diversos usos e versões da filosofia atomista foram elaborados - frequentemente muito distintas da forma antiga, com mais ênfase em questões teológicas sobre o continuum e o infinito - começando com explicações detalhadas do pensamento antigo por teólogos de Baghdad e Basra, no século IX e X, e posteriormente em centros intelectuais judaicos. Reencontros análogos com a teoria atomista ocorreram na Europa, especialmente a partir do século XII em Chartres, e no século XIV em Paris e Oxford. O revivalismo do corpus aristotelicum no mundo latino a partir do século XIII provocou uma maior familiaridade com as proposições de Demócrito, expostas e discutidas recorrentemente nos textos científicos de Aristóteles. No mundo intelectual árabe, a popularidade do hilomorfismo de inspiração aristotélica era contrastada pela visão atomista da escola teológica do Calâm, ainda que sua concepção de átomo, como desenvolvida por teóricos relevantes como Abū al-Hudhayl, fosse predominantemente matemática, faltando-lhe corporeidade e semelhanças substanciais com o pensamento de Demócrito ou Epicuro, por mais que ambos fossem conhecidos. Alguns dos mais notórios filósofos muçulmanos, como Ibn Rushd, Ibn Sı̄nā e al-Ġazālı̄, foram críticos dessa tendência atomista, favorecendo o hilomorfismo. Não obstante, essa ênfase matemática e teológica não impediu outros de tomar o átomo em seu caráter físico e material, como os acadêmicos de Oxford - Walter Chatton, William Crathorn, e John Wyclif. Destaca-se, além desses, Nicolau de Autrecourt, cuja teoria dos movimentos físicos baseava-se no atomismo, levando também à proposição da eternidade do mundo.

Escola de Chartres

A escola de Chartres, notória no chamado renascimento do século XII, sendo um centro intelectual emblemático do período, produziu pelo menos um simpatizante do atomismo, Teodorico de Chartres, e pelo menos um adepto, Guilherme de Conches. Entretando, a instituição propriamente não possuia vinculo com o materialismo, mantendo, na verdade, raízes platônicas, relativamente hostil aos atomistas que lá passaram. Chanceler da escola de Chartres, Teodorico foi um filósofo que contribuiu com o estudo da filosofia natural, reestabelecendo o contato e o ensino da cultura científica antiga. Sua concepção de materialidade, também fundada nos quatro elementos, continha uma proposição de estrutura corpuscular para tais elementos.

Nominalismo

O nominalismo, que compreende uma variedade de posições críticas ao realismo predominante na filosofia medieval, do qual o nominalismo ockhamista assume a face mais representativa, apesar da singularidade dos demais pensadores, como o ceticismo de Nicolau de Autrecourt, guarda afinidades com o materialismo, posteriormente desenvolvidas de maneira mais explícita por autores modernos. Karl Marx, por exemplo, afirma até mesmo que o nominalismo foi a primeira expressão do materialismo. Nesse sentido, a crítica do conceito de universal conduzida pelos pensadores nominalistas implica uma ênfase nos entidades individuais, frequentemente materiais e empíricas, na pluridade e nas transformações processuais. O nominalismo propicia, portanto, um afastamento da idealidade dos universais, uma maior autonomia à filosofia, à natureza e sua ciência. Coincidentemente, boa parte dos nominalistas fizeram contribuições significativas nas ciências empíricas e na lógica formal, diferente dos filósofos realistas, mais circunscritos à teologia.

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No renascimento

Pietro Pomponazzi

Pensador do norte da itália nascido em 1462, sua carreira se desenvolveu imersa num produtivo período de publicação e restituição dos textos de Aristóteles, dos peripatéticos e seus comentadores da antiguidade tardia, esforço no qual Pomponazzi também se localizava. Sua obra de maior repercussão na época e na posterioridade foi o Tractatus de immortalitate animae, publicado em Bolonha no ano de 1516, e se insere no debate sobre a imortalidade da alma, contendo, entre outras exposições, uma crítica às proposições sobrenaturais de Marsílio Ficino que serviriam para atestar a sobrevivência da alma, opondo-lhe, por sua vez, explicações naturais para tais fenômenos. O tratado sustenta que a razão natural e a filosofia aristotélica, que servem em parte de 'vitrines' através das quais articula seu próprio pensamento, conduzem necessariamente à tese da mortalidade da alma, contrariamente ao consenso teológico. Por seu conteúdo, essa obra foi denunciada publicamente em Bolonha, e queimada em Veneza. Pomponazzi, apesar disso, manteve-se seguro em sua carreira universitária em razão de seus protetores na Igreja, a retratação que lhe foi exigida seria meramente formal e o livro recebeu mais duas edições em vida. Permaneceu, ainda assim, um alvo de amplas polêmicas, recebendo objeções de diversas correntes intelectuais da época, desde o tomismo ortodoxo ao averroísmo. Pietro se tornaria, no século seguinte, uma figura emblemática do ateísmo e da libertinagem, e aparece novamente no século XIX como símbolo de uma filosofia laica e racionalista.

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No século XVIII

Revivalismo de Lucrécio

A obra de Lucrécio reemergiu no cenário filosófico na segunda metade do século XVIII, atraindo uma ampla atenção no debate científico, e especialmente no iluminismo francês, e tornando-se a inspiração de formas renovadas de materialismo.

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Emergência da palavra

Primeiras menções

Para o historiador Olivier Bloch, a gestação do termo materialismo/materialista ocorre ao longo da década de 1660, durante a qual sentidos antigos de materialidade se debatem com novas concepções, informadas por transformações intelectuais da época. Seu nascimento é indicativo tanto de uma continuidade, com o problema da forma e da sensibilidade desde a filosofia antiga, quanto de uma ruptura, a reorganização do sistema de conceitos no início da modernidade, com a elaboração do mecanicismo. O primeiro aparecimento do termo em um texto filosófico, com um sentido reconhecidamente moderno, se dá no diálogo do Platonista de Cambridge Henry More, denominado Divine Dialogues (Diálogos Divinos), de 1666-1668. Nele, More apresenta quatro personagens, que são propriamente personificações de posições filosóficas implícitas na etimologia grega de seus nomes - Sophron, homem de bom senso; Cuphrophon, ligeiro de pensamento; Bathynous, de espírito profundo; e Hylobares, pensante da matéria, do grego antigo Hyle, ὕλη, termo aristotélico para matéria, derivado do seu significado de madeira ou matéria prima. No diálogo, Hylobares é qualificado de 'materialista', e através dele More apresenta uma perspectiva que atribui tudo do mundo físico às leis do movimento, contra sua tese os interlocutores argumentam pela ideia de uma finalidade do universo e de uma razão criadora, forma de exposição do pensamento de More, que terminará por vencer, no diálogo, as teses de Hylebares.

Materialistas declarados

É apenas em torno da metade do século XVIII que alguns pensadores passam à se definir explicitamente enquanto materialistas, como é o caso do notório francês Julien Offray de La Mettrie. Não obstante, essas afirmações do materialismo continuam acompanhadas de reservas, escrúpulos e frequentemente negações, que confirmam um sentido ainda negativamente carregado, permanentemente cercado de uma polêmica.

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