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Castro Alves

Antônio Frederico de Castro Alves foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 21/07/2026
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Primeiros anos

Nasceu Antônio Frederico na Fazenda Cabaceiras, às dez horas da manhã, do domingo 14 de março de 1847. Era a família do poeta abastada e culta, formando um ambiente familiar de grande inclinação cultural. Seu avô materno era o Major Silva Castro, herói das lutas pela Independência da Bahia e figura importante na história do sertão baiano. Segundo os historiadores Alberto da Costa e Silva e Pedro Calmon, Castro Alves possui origem cigana por parte de sua mãe, Clélia Brasília, filha de Ana Viegas, uma cigana espanhola. Também de sua mãe teria herdado a sua cor de pele. Tinha o poeta o apelido familiar de "Cecéu".[nota 2] Passou nas terras sertanejas sua primeira infância, que lhe fez "guardar indelével impressão" para o resto da vida, no dizer de Afrânio Peixoto. Era cuidado pela "mucama" Leopoldina, que lhe contava as histórias e lendas do sertão, e um filho desta, Gregório, viria a ser pajem do poeta. Cursou o primário em São Félix. Junto ao irmão mais velho teve suas aulas iniciais com um professor e curandeiro chamado José Peixoto da Silva, e Aristides Mílton lembra que foi de ambos colega na cidade de Cachoeira na classe do mestre-escola Antônio Frederico Loup.

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Vida em Recife

Em 25 de janeiro de 1862, pouco depois do casamento do pai com Maria Ramos Guimarães, e contando apenas catorze anos, Castro Alves se mudou para a cidade de Recife com o irmão mais velho, a fim de se matricularem num curso preparatório anexo à Faculdade de Direito daquela capital, com intuito de nela ingressarem. Logo se entrosou com as atividades sociais da mocidade acadêmica, como disse Afrânio Peixoto: "Aí a vida agitada e solta da academia, onde os moços de talento porfiavam por aparecer, a índole generosa de Castro Alves, que desde cedo aspirou à glória que dão as grandes causas sociais, fizeram dele um tribuno e um poeta que se não esquivou às sessões públicas na Faculdade, nas sociedades dos estudantes, na plateia dos teatros, incitado desde logo pelos aplausos e ovações que começara a receber, e iam num crescendo de apoteose". Assim que chegou ao Recife morou com o irmão no Convento de São Francisco e dali se mudaram para uma república na rua do Hospício, onde depois viria a morar também seu futuro cunhado Augusto Álvares Guimarães, seu grande amigo. Xavier Marques relembra dos dois irmãos, então: José Antônio a ler Álvares de Azevedo para os loucos do hospício e ele, Castro Alves, "jogando bilhar, desenhando e fazendo versos". Luís Cornélio dos Santos, outro grande amigo que o acompanharia até a morte, relata que foram então morar num bairro afastado de Recife, às margens do Capibaribe, onde muitas vezes o seguia em caminhadas em que lia poemas de um caderninho que, mais tarde, se perdeu. O amigo registrou sobre esse período: "A alma desse menino era de uma pureza inexcedível; a inteligência tinha lampejos que ofuscavam como relâmpago — Hugo em pequeno devia ser assim" e sobre o caderno perdido: "Esse livrinho perdeu-se; nem uma dessas estrofes figura hoje no rico tesouro de poemas que nos legou".

Mestre do improviso e da declamação

Havia uma percepção entre os românticos condoreiros, e não apenas em Castro Alves, de que a poesia poderia mudar o mundo e, para isto, precisava ocupar os espaços públicos na divulgação dos ideais que defendiam (abolição, república, democracia, etc.); nenhum deles, entretanto, atingiu a sua popularidade e capacidade em dar visibilidade à arte poética. No Recife ele se destacou pelos improvisos e pelas manifestações nos momentos históricos pelos quais convulsionava a opinião pública; assim é que em começos de 1866, na mesma rua do Hospício onde morou, juntou-se a Augusto Guimarães, Rui Barbosa, Plínio de Lima, Regueira Costa e outros na fundação de uma sociedade abolicionista. Apesar de ter manifestado interesse em se alistar, não foi simpático à Guerra do Paraguai — sentimento que não o impediu de prestar homenagem patriótica ao amigo Maciel Pinheiro, que partira para o teatro das lutas; numa manifestação popular em defesa da república, que a polícia reprimiu, ele proferiu um improviso onde diz: "A praça, a praça é do povo / Como o céu é do condor…"; ou, ainda, o improviso "À Mocidade Acadêmica" durante a questão Ambrósio Portugal,[nota 8] onde conclamou aos jovens, de uma janela da rua do Imperador: "Vós os luzeiros do país, erguei-vos! / Perante a infâmia ninguém fica exangue (…) A lei sustenta o popular direito, / Nós sustentamos o direito em pé!"; ou, ainda, na defesa de Eugênia durante os embates com Tobias Barreto que se verá a seguir: "Gravitar para ti é levantar-se / Cair-te às plantas é ficar de pé". Vicente Azevedo, contemporâneo, registrou: "E ele sabia preparar a cena, como emérito que era. Para essas ocasiões, punha pó de arroz no rosto, a fim de acentuar mais a palidez; um pouco de carmim nos lábios (oh! Adoráveis ilusões da mocidade) e muito óleo nos cabelos que ele arremessa da formosa cabeça".

Eugênia Câmara e Tobias Barreto

Desde 1864 a família do poeta encontrara na bagagem do jovem estudante uma fotografia de Eugênia Câmara, e passou a se preocupar com ela; divergem Afrânio Peixoto e Xavier Marques, entretanto, qual a data precisa de quando fora a origem do amor, embora aos dezenove anos e quando ele já era "o mais belo homem que se possa imaginar. Alto, forte, esbelto, de tez levemente morena, ampla testa, olhos negros, rasgados e pestanudos, nariz direito, lábios sensuais e, na cabeça poderosa, a coma negra, retinta, luzidia, de uma basta e longa cabeleira, cuja sedução ele conhecia" e apresentava já formação intelectual solidificada que lhe dera grande popularidade após "abalar" a Faculdade de Direito ao declamar "O Século", protagonizou por ela um dos mais vibrantes duelos da história literária brasileira contra o colega Tobias Barreto.

Passagem pela Bahia

Em Salvador o casal de amantes se hospedou no Hotel Figueiredo, no centro, atendendo ao desejo de Castro Alves de que os notem, uma afronta à sociedade baiana; mas logo a atriz, tendo o amor a esmaecer, manifestou o desejo de voltar aos palcos e os dois se transferiram para a quinta da Boa Vista, onde fora o hospital do Dr. Alves e morou a família alguns anos (então a casa estava abandonada, após a morte do pai). Ela passou a se apresentar numa companhia que atuava no Teatro S. João: ali estreou a 20 de junho de 1867, e tanto ela quanto o poeta foram aplaudidos pelos versos que ele e também Eugênia declamaram, repetindo ali o sucesso do Recife.

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No Rio de Janeiro e em São Paulo

No 10 de fevereiro de 1868 embarcou com Eugênia para o Rio de Janeiro, a bordo do navio Picardie,[nota 10] para uma breve parada antes de seguir o casal para São Paulo. No Rio, portando uma recomendação de Fernandes da Cunha apresentou-se ao consagrado escritor José de Alencar, a quem leu os esboços de "A Cascata de Paulo Afonso" (título provisório do poema). Desse encontro resultou o artigo "Um Poeta" pelo autor de Iracema, publicado no dia 22 de fevereiro no jornal Correio Mercantil. Alencar fez mais, apresentou-o a Machado de Assis com uma missiva de recomendação em que indicava-lhe o "Poeta dos Escravos" com as seguintes palavras: "Seja o Virgílio do jovem Dante, conduza-o pelos ínvios caminhos por onde se vai à decepção, à indiferença e finalmente à glória, que são os três círculos máximos da divina comédia do talento".[nota 11] Durante sua estadia ali ocorreu a vitória brasileira na Guerra do Paraguai da Passagem de Humaitá.[nota 12] Acorreu grande multidão às ruas, festejando a conquista, e saiu Castro Alves à sacada do jornal Diário do Rio de Janeiro (à Rua do Ouvidor, n.º 97), onde declamou de improviso "uma de suas raras poesias guerreiras, versos de circunstância, aplaudidos pela multidão, louvados pela imprensa" no dizer de Peixoto, mas que ele mesmo depois escreveria no manuscrito em que registrou o poema: "não se publica" (recomendação não seguida pelos editores de sua obra).[nota 13] Foi ainda num dos salões deste jornal que ele fez apresentar à diminuta plateia de intelectuais as cenas do Gonzaga, sua peça, que o jornal depois noticiaria ter saído "laureado o Sr. Castro Alves". Tais sucessos encheram-no de orgulho, apesar de simular condição humilde; em março seguiu com Eugênia para a capital paulista, onde granjeou admiração da juventude, e o ciúme em figuras como Joaquim Nabuco.

Acidente de caça e amputação do pé

Diante do desgaste emocional do constante chamamento às apresentações públicas e do drama passional com Eugênia, tornou-se o poeta vítima de "profundo abatimento" e procurou momentos de solidão. "Não lia, não escrevia; passeava, fumava, saía à caça, sem disparar sequer um tiro", disse Afrânio Peixoto. No dia primeiro de novembro de 1868,[nota 14] segundo relata Peixoto, lembrando ainda a piora de sua tuberculose: "fora passar um dia no arrabalde do Brás, e à tarde desse dia tomara a espingarda e saíra para o campo. Ao transpor uma vala,[nota 15] com o salto, a arma voltada para baixo dispara e a carga de chumbo emprega-se no pé esquerdo. Pôde arrastar-se até a casa de seu amigo e correspondente, o médico baiano, Dr. Lopes dos Anjos, [que] o conduziu então para a casa da cidade, na rua do Imperador, junto ao atual número 33. Além deste médico e amigo, prestou-lhe serviços o cirurgião Dr. Cândido Borges Monteiro, Barão de Itaúna, presidente da província. Mas o mal se agravava, sem esperança de cura, e os antigos padecimentos pulmonares acordavam, impressionantes".

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O retorno à Bahia

Sua chegada em Salvador, em relato transcrito por Archimimo Ornelas, traduziu a decadência física e moral de Castro Alves: "Foi uma cena comovente a sua entrada na casa paterna, recebido pela madrasta e pelas jovens irmãs que o adoravam. Partira forte, ereto, cheio de confiança e audácia, voltava exangue, aleijado, doente do peito, com a alma saturada de amargura". Cercado do amor familiar e dos amigos, reencontrou as judias que um dia lhe inspiraram, sendo que Ester estava noiva agora. Ele fingiu estar desolado com isto e, pela janela do lar ao vê-las passar fingiu com um punhal de papel ferir-se no peito ao que elas, achando graça, fizeram-lhe sinal para que não perdesse as esperanças. A 29 de janeiro partiu para o sertão uma última vez, em viagem de barco que ia "cindindo as ondas do Paraguaçu em demanda da solidão profunda dos desertos, para apascentar, como Saul, os desesperos do meu espírito, e aviventar este sangue exausto e empobrecido pela tristeza e sofrimento", como registrou o condoreiro numa carta a Luiz Cornélio; partiu, então, junto ao cunhado Augusto, para Curralinho, onde, segundo Archimimo Ornelas, achou-se influenciado pela morte de Allan Kardec ocorrida no final do ano anterior e que tivera grande repercussão naqueles dias, e produziu versos em que questionava a vida pós-morte.[nota 17]

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Morte

Quando eu morrer... não lancem meu cadáverNo fosso de um sombrio cemitério...Odeio o mausoléu que espera o mortoComo o viajante desse hotel funesto O escritor gaúcho Múcio Teixeira em sua biografia do poeta de 1896 contou seu último laivo de vaidade: "Na véspera do dia fatal, depois de reiteradas súplicas, deram-lhe um espelho. Ele contemplou-se alguns instantes, visivelmente compungido, e balbuciou: «Já não sou mais o mesmo… Como a morte desfigura as suas vítimas!» Entregou-o, dolorosamente desiludido, e disse: «Ninguém mais pode entrar aqui. Quero que se lembrem do que fui, não do que sou!… Assim que eu morrer, cubram-me de flores e fechem logo o meu caixão»". Relato publicado em 1921 pela revista Bahia Illustrada trouxe o registro familiar da morte do poeta (com atualização ortográfica, aqui): Múcio Teixeira, lembrando a reverência que em Florença se tem diante da casa onde morou Dante, ou em Caracas junto ao panteão onde jazem os restos de Simão Bolívar, pregava que "A população baiana, sem distinção de sexo nem de classes, devia ir no dia 6 de julho de cada ano, numa espontânea procissão de imponente majestade, parar por alguns instantes diante do sobrado n. 24 da rua Sodré, onde no dia 6 de julho de 1871, às 3 ½ horas da tarde, expirou Castro Alves, contando apenas 24 anos de idade".

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Obra

Contexto

Para o pesquisador estadunidense da obra de Castro Alves, Jon M. Tolman, sua "biografia serve, não para definir a poesia, nem como chave para sua compreensão, mas apenas como uma espécie de encaixe histórico, onde podemos vislumbrar com mais autenticidade a tática criativa do poeta". Neste sentido um panorama histórico e cultural serve "para tornar mais compreensíveis certos temas, atitudes e até técnica de sua poesia". Vigorava no Brasil do Segundo Reinado o sistema da escravidão, concentrando o Nordeste, em 1867, 47% da população cativa no país (774 mil pessoas), enquanto o desbravamento da região cafeeira paulista levou o número de escravos a dobrar no decênio de 1864 a 1874 e fez com que a questão abolicionista ganhasse ali também a mesma relevância de cidades onde a presença de negros era grande, como Salvador e a capital do Império, Rio de Janeiro. Desde 1850 o tráfico de escravos da África fora proibido pela Lei Eusébio de Queiroz, ocorrendo na Bahia a 29 de outubro de 1851 o episódio do "Desembarque da Pontinha" na Ilha de Itaparica — último momento documentado de tentativa de burlar a proibição do tráfico, numa demonstração da resistência no estado dos comerciantes e proprietários de escravos.

Análise

O trabalho poético de Castro Alves é dividido, nas obras didáticas, em dois grupos: a poesia social e a poesia lírico-amorosa. Para Faraco e Moura, ao contrário dos demais poetas românticos que explicavam sua inadaptação ao mundo exterior como fruto de seus conflitos internos, Castro Alves justifica esse problema com o desajuste do homem ao meio e na "eterna luta entre opressores e oprimidos"; a produção do poeta tem, além da produção lírica e amorosa, a "poesia de caráter social"; mesmo no caso dos versos líricos Castro Alves se distingue por ter "uma visão mais realista e sensual do amor e da mulher", sendo que estas, embora ainda idealmente belas e perfeitas, são pessoas concretas, materializadas.

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Homenagens

A 6 de julho de 1881, dez anos após a morte do poeta, o então chamado "Largo do Teatro", uma das principais praças da capital baiana, foi renomeado em sua homenagem; em 1919 foi encomendada ao escultor italiano Pasquale de Chirico uma estátua representando-o; o monumento foi instalado no lugar em que havia o "Chafariz de Colombo" e inaugurado a 6 de julho de 1923; a estátua, medindo 2,9 metros, está posicionada sobre um pedestal (que lhe dá a altura total de 11 metros) em cuja parte frontal se acha a escultura de um casal de escravos, simbolizando sua luta abolicionista: a Praça Castro Alves é um dos símbolos de Salvador. Em referência à praça, Caetano Veloso parafraseou o verso de Castro Alves "A praça é do povo, como o céu é do condor" de "O Povo ao Poder", rendendo-lhe a seguinte homenagem: "A Praça Castro Alves é do PovoComo o céu é do avião" Em 1895 Curralinho se emancipou de Cachoeira; anos mais tarde teve a cidade seu nome alterado para Castro Alves, em homenagem ao filho ilustre da terra (as fontes divergem se foi pela lei estadual n.º 360 de 25 de julho de 1900, ou a lei n.º 790 de 25 de junho de 1910). Em 1947 o Instituto Nacional do Livro, do Ministério da Educação e Cultura, comemorou o centenário do nascimento do poeta com uma grande exposição, da qual resultou um livro comemorativo, trazendo importantes documentos que fizeram parte do evento.

Monumentos e esculturas

Além da estátua de De Chirico na praça soteropolitana, outros monumentos homenageiam o poeta, no Brasil. No Passeio Público do Rio de Janeiro há um busto em bronze do poeta, obra do escultor Eduardo de Sá, inaugurado em 1917 e com principal diferenciador o pedestal em mármores de cores diversas. Em seu primeiro número, sem identificar o autor, um artigo da revista carioca Bahia Illustrada teceu críticas sobre este trabalho: "o busto de Castro Alves, que se acha no Passeio Público, parece-se tanto com ele como com qualquer de seus ignorados companheiros de boemia e de estudantada do seu tempo", e que a estátua não traz "nenhuma identidade com o seu rosto", concluindo que somente se sabe tratar do poeta porque traz seu nome escrito no bronze.

Academia Brasileira de Letras

A Academia Brasileira de Letras nomeou em sua homenagem, por sugestão do membro fundador Valentim Magalhães, a sua cadeira número sete que assim tem por patrono o poeta Castro Alves. Sua cadeira foi alvo da primeira grande disputa interna dentro da Academia, em 1905; naquele ano fora eleito Euclides da Cunha para ocupar a vaga deixada pelo fundador da Cadeira 7, Valentim Magalhães, e coube ao crítico literário Sílvio Romero fazer o discurso de saudação do novo membro do silogeu brasileiro. Romero, sergipano como Tobias Barreto, era crítico do trabalho de Castro Alves em razão daquelas disputas estudantis no Recife (por bairrismo e parcialidade, no dizer de Afrânio Peixoto). Em seu discurso, que o protocolo preconizava ser elogioso, derivou para o cunho polemista de seus escritos, ofendendo até o presidente da República, Afonso Pena, ali presente — além de duras críticas a Castro Alves (patrono), Valentim (fundador) e Cunha (a tomar posse). Construída a sede própria da Academia, foi nela instalado o "Salão dos Românticos", onde há bustos dos principais autores do romantismo brasileiro, dentre eles o de Castro Alves; é neste local que são velados os acadêmicos falecidos.

Centenário de nascimento em 1947

1947 foi o ano do centenário de nascimento do poeta, e vários eventos em sua memória ocorreram, sobretudo na Bahia e no Rio de Janeiro, então Distrito Federal. No ano anterior o governo federal realizou um concurso para o projeto de estampa dos correios comemorativa ao centenário, do qual foi vencedor o desenhista Alberto Lima. O Ministério da Educação e Saúde conferiu medalhas trazendo a efígie do poeta na frente, e atrás os versos de sua autoria: "«Auriverde pendão da minha terra, / Que a brisa do Brasil beija e balança, / Estandarte que à luz do sol encerra / As promessas divinas da esperança»…", obra do gravador L. Campos. O Ministério realizou, ainda, no Rio de Janeiro, uma Exposição Comemorativa do Centenário de Castro Alves, tendo direção de Augusto Meyer e iniciada no dia 14 de março. A prefeitura do Rio instituiu, no mesmo ano, concurso de redações em várias categorias, como a melhor biografia do poeta ou romance que fosse ambientado em algum momento de sua vida.

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Impacto cultural

A influência de Castro Alves deu-se ainda em vida, como assinala o historiador literário José Marques da Cruz: "A sua poesia 'O Navio Negreiro' foi decorada por muitos, tendo concorrido para a abolição da escravidão, intensamente, pois foi recitada em todos os teatros e salões (…) Foi abolicionista (antes de haver o partido abolicionista) e republicano". Em 1882 foi publicada no Rio de Janeiro uma paródia a "O Navio Negreiro", com o título de "A Canoa do Martinho", parte de "Sátiras Políticas" e de autoria anônima (guardava a assinatura de "Musset", um dos escritores de predileção de Castro Alves). Na sua obra épica de 1950, Canto Geral, o chileno Pablo Neruda inseriu o poeta entre os libertadores da América, no poema "Castro Alves do Brasil" (IV Canto, poema 29.º), onde afirma que ele fora o "poeta da nossa América" por haver dado aos escravos uma voz onde "…em portas até então fechadas (…) combatendo, a liberdade entrasse" e, finalmente, encerra com os versos: "deixa-me a mim, poeta da nossa América, /coroar a tua cabeça com os louros do povo. /Tua voz uniu-se à eterna e alta voz dos homens. /Cantaste bem. Cantaste como se deve cantar".

No cinema

Castro Alves foi retratado como personagem no cinema, interpretado por Paulo Maurício no filme de ficção luso-brasileiro de 1949 Vendaval Maravilhoso (aka "Castro Alves — Um Vendaval Maravilhoso"), tendo a cantora Amália Rodrigues a interpretar a atriz Eugênia Câmara; a obra foi restaurada em 2003 pela Cinemateca Portuguesa; segundo informado no próprio filme a obra foi inspirada "na vida de Castro Alves — O Poeta dos Escravos. Este filme não é uma biografia, apenas os autores estudaram nos grandes biógrafos do poeta: Afrânio Peixoto, Pedro Calmon, Jorge Amado e Lopes Rodrigues". O diretor Leitão de Barros também escreveu um livro que conta a história do filme, intitulado "Como eu vi Castro Alves e Eugênia Câmara no vendaval maravilhoso de suas vidas" sobre aquele "rapaz eloquente de Muritiba” e sua amante portuguesa. Em 1999 o poeta foi interpretado pelo ator Bruno Garcia no filme Castro Alves - Retrato Falado do Poeta, onde ele é retratado nas suas lutas pela República e pela Abolição, "além de mostrar seu lado apaixonado e até mulherengo".

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Fontes consultadas

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